segunda-feira, 9 de maio de 2016

Homeopatia: história e fundamentos epistemológicos

Homeopatia: história e fundamentos epistemológicos
Homeopathy: its history and epistemological foundations

Hylton Sarcinelli Luz
Médico homeopata; pesquisador associado do Instituto de Medicina Social da 
Universidade do Estado do Rio de Janeiro (IMS/UERJ); membro da Comissão
 Científica da Associação Médica Homeopática Brasileira
hyltonluz@uol.com.br

Paulo Rosembaum
Homeopatia: 
medicina interativa, 
história lógica da
  
arte de cuidar

Rio de Janeiro,
Imago, 212p.
     O livro de Paulo Rosembaum, Homeopatia: medicina interativa, história lógica da arte de cuidar, apresenta uma análise desta prática médica, abordada através de suas questões epistemológicas, com a qual visa identificar suas bases, mapear suas necessidades e estabelecer propostas de fundamentação empírica, considerando para tal as diversas alternativas hoje disponíveis. Aponta este levantamento como pré-requisito à elaboração de um programa de pesquisas que seja apto a suportar as características da racionalidade, garantindo-lhe desenvolvimento e validação científica.      O presente trabalho é resultado da dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo no Departamento de Medicina Preventiva, defendida em junho de 1999 sob a orientação do prof. José Ricardo C. M. Ayres. Este assinala no prefácio as questões que lhe provocaram a experiência de lidar com este campo do saber e os pontos de vista invocados pelo autor.      Rosembaum inicia contextualizando a homeopatia como a 16ª especialidade médica em número de profissionais registrados no Conselho Federal de Medicina. Fala da expressiva interpenetração nos programas públicos de saúde, mormente no âmbito das ações primárias e da demanda na área de formação de recursos humanos, onde tem programa de qualificação reconhecido e com carga horária equiparável às demais especialidades. Neste sentido refere-se a um "fenômeno de expansão" não como um evento delimitado ao país, mas como um reflexo do panorama internacional onde a prática da homeopatia ganha espaço progressivo. Justificando como uma necessidade irrecorrível a questão de pesquisas científicas para que se sustentem as condutas e os fundamentos que orientam suas intervenções na assistência pública à saúde.      A partir da demanda pública e do reconhecimento dos efeitos positivos pela população, analisa como pertinente as expectativas do meio científico em relação à homeopatia com respeito à validação dos eventos empíricos e das metodologias que são aplicadas na sua consecução. Neste ponto situa o eixo central de seu trabalho, o qual, apoiado na metodologia da epistemologia histórica de Bachelard e Canguilhem, analisa os fundamentos da racionalidade médica homeopática. Por esta via aborda, conseqüentemente, discrepâncias essenciais entre as epistemes que sustentam a racionalidade da biomedicina hegemônica, focada na ordem do gênero nosológico, e a da medicina homeopática, centrada na ordem das espécies e da observação das singularidades individuais.      Sobre o movimento homeopático contemporâneo, refere-o como sendo a reconquista de um estatuto institucional mais seguro e politicamente mais bem posicionado, decorrência de uma diversidade de articulações construídas na área da saúde. No entanto, ressalta que o discurso científico e os novos campos de interlocução conformaram uma miríade de dialetos terminológicos e ramificações que impedem que se fale em "a homeopatia", mas sim em "as homeopatias". Justifica a necessidade de sua investigação como meio de escapar da simplificação, reducionista e perigosa, que historicamente polariza correntes homeopáticas que se autodenominam científica e clássica. Aponta na homeopatia contemporânea necessidades que ultrapassam largamente a simples busca de se fazer entender através da assimilação incondicional dos critérios da biomedicina, ou de seguir assepticamente proposições doutrinárias que visam reproduzir "literalmente" o projeto original.      Expõe sobre a construção histórica, política e social do corpusde conhecimento médico homeopático, traçando relações com a história da medicina e das doutrinas médico-biológicas que modulam o atual modelo biocêntrico de saúde. Neste processo analisa algumas das principais doutrinas médicas, em especial, a tradição empírica e vitalista. Perspassa a questão dos saberes hegemônicos e minoritários que transitam ao largo da história, observando "possiblidades epistemológicas originais" e "descobertas negadas" em detrimento da positividade dos eventos patológicos que constroem a historiografia da moderna medicina.      Aborda a construção da epistemologia homeopática através de sua história, analisada através dos conceitos de Kunhn e Lakatos, refere-se a cortes, refluxos, contrapensamentos e choques, inserido-os tanto em dimensões científicas quanto sociopolíticas. Dentro deste contexto apresenta as proposições de Hahnemann como uma ruptura epistemológica, como uma "virada de mesa" que desafia determinadas categorias estáveis na "ciência normal" da medicina de sua época. Analisa o movimento homeopático através de um recenseamento histórico-epistemológico em que discrimina personagens e fatos envolvidos nos processos de irrupção e encapsulação das idéias que vão compor vertentes de pensamento na homeopatia contemporânea.      Na análise do processo histórico através dos seus aspectos filosófico-conceituais e político-institucionais, aborda o desenvolvimento do saber homeopático em fases, nas quais traça a trajetória de personagens e conceitos. Toma os fatos como idéias e estas como fatos, deste modo, mostra rearranjos e realinhamentos experimentados pelo "programa científico da homeopatia". Situa a homeopatia entre os sistemas médicos privilegiando sua filiação à doutrina conhecida como vitalismo, chamando atenção para as modulações que toma ao longo a história. Aponta a influência desta doutrina nos programas de investigações empíricas presentes até o início do século XX não como um objeto de estudo, mas como uma conseqüência da própria natureza dos fenômenos investigados. Seguindo esta lógica implica as linhas "vitalistas" com a ênfase ao valor da singularidade individual e as questões que interrogam a suficiência dos elementos físico-químicos para fundamentar a patologia e o processo de restauração da saúde. Propõe um aprofundamento de concepções presentes no vitalismo, no âmbito do processo de vida e morte, com perspectiva de se elaborar uma teoria geral dos sistemas vivos.      Constrói um painel de interlocuções para demonstrar a teoria homeopática como tributária direta da filosofia vitalista, estabelece conexões, aponta distinções e examina como o pensamento de Hahnemann é acolhido e rechaçado em diversos pontos da Europa. Indica como este pensamento cria núcleos de resistência, dissemina-se pelo mundo ocidental e origina correntes que alteram o seu eixo epistemológico com adaptações que visam validá-la frente aos postulados da racionalidade médica biocêntrica. Debate sobre o pensar científico e os métodos de argumentação, neste aspecto aborda a recente polêmica que envolve a tese de Beneviste acerca da "memória da água". Aponta para as contribuições da homeopatia na investigação dos aspectos qualitativos da saúde, principalmente no sentido de compreensão do binômio enfermidade/enfermo, particularmente na dimensão antropológica enquanto técnica de intervenção. Nesta, ressalta a sua particularidade de privilegiar como saber médico a fenomenologia da individualidade aplicada ao homem enfermo. Refere-se ao aproveitamento do conhecimento experimental gerado através de um método empírico que se fundamenta na observação dos sintomas, os quais visam expressar e valorizar a totalidade do indivíduo, conformando parâmetros e critérios que evidenciam aquilo que denomina como "manifestações da vitalidade individual".      É no capítulo dedicado aos perfis teóricos da terapêutica homeopática onde concentra o debate sobre os fundamentos epistemológicos da homeopatia como prática médica. Apresenta inicialmente as questões da predisposição, suscetibilidade e idiossincrasia, traçando o conceito genérico, isto é, dentro do campo médico e científico, assim como os significados no contexto homeopático. Aponta para a relevância que assumem como "elementos operacionais" da doutrina homeopática, tanto com respeito à determinação dos traços que individualizam a causa e o curso dos adoecimentos, quanto e, também, na determinação das singularidades que irão distinguir tanto as entidades nosológicas da mesma espécie entre si, quanto para determinar os elementos que indiciam capacidades responsivas às substâncias aplicadas na terapêutica. Aborda a evolução destes conceitos ao longo da construção empírica do saber homeopático por seu fundador, assim como por comentadores, apontando para aspectos conflitantes e que requerem investigação sistematizada, tanto para sua determinação como elementos semiológicos na clínica, quanto para sua análise frente ao estudo das propriedades das substâncias terapêuticas.      Sobre a similitude como princípio na terapêutica, situa a sua enunciação e aplicação por Hipócrates, assim como o seu percurso ao longo da história, aborda também a sua relação com que o que denomina Foucault como "raciocínio analógico" que perspassa épocas e culturas, apontado-o como uma episteme em si, um modo de pensar, isto é, um solo comum para diversas construções discursivas. Situa as patogenesias, o programa de investigação das substâncias medicinais, como o fundamento praxiológico que rompe de forma definitiva com os sistemas médicos de sua época, tanto por ser pré-requisito à escolha das substâncias, quanto por sefundamentar em experimentações com indivíduos não enfermos. Com respeito à opção de experimentar em indivíduos saudáveis, refere-se aos "empíricos" que, na história da medicina, cogitaram ou aplicaram rudimentarmente esta proposição. Implica o desenvolvimento e aprimoramento deste método experimental com a origem das doses mínimas e destas com as dinamizações, assim como também com a construção do modelo de observação da totalidade. Esta última conduzindo aos referenciais semiológicos que determinarão a demonstração empírica da concepção de unidade funcional e da singularidade. Ambos como elementos necessários ao estabelecimento das analogias que orientam a técnica de intervenção.      No capítulo em que aborda os desafios epistemológicos que estão propostos à homeopatia faz o que chama de "levantamento preliminar e exploratório" de problemas que precisam retornar para o âmbito da pesquisa e reflexões em homeopatia. Destacamos: "variabilidade individual e terapêutica", sobre a qual enumera um conjunto importante de aspectos que precisam ser aprofundados na técnica da individualização, visando garantir clareza e precisão para os critérios que se envolvem com a análise e a depuração dos elementos "subjetivos" deste processo. Em enfermidades crônicas faz considerações acerca da origem etiológica dos sintomas, isto é, aos fatores endógenos e exógenos que geram o complexo sintomático. Analisa e debate aspectos que dizem respeito à questão da norma e da construção do patognomônico, tanto na enfermidade, quanto no sujeito. Aponta nesta última os elementos centrais que problematizam a construção de uma totalidade individualizante, inserindo aí a questão da regularidade do diverso na seriação dos eventos em um dado ordenamento temporal. Neste contexto percorre as regras instituídas e destituídas ao longo da história da prática homeopática. Assim, indica o método de apreensão do sujeito através de elementos singularizantes presentes na evolução das histórias clínicas, como mais um campo de investigação necessária.      Em "homeopatia como medicina do sujeito" contextualiza o momento histórico da medicina em que é feita esta proposição, definindo o seu significado e estabelecendo distinções, assim como também nexos com outras propostas passadas e presentes. Em "homeopatia: medicina interativa, por uma semiologia do sujeito", avança sobre a questão da construção das histórias clínicas e da abrangência das concepções de totalidade do objeto observado pela medicina, deste modo adentra a noção de limites do campo de observação e conseqüentemente da definição do próprio objeto. O último tópico refere-se a um "neovitalismo" quando discorre sobre o curso desta idéia no presente e as repercussões dos conceitos de totalidade e unidade sobre as ciências da vida. Afirma ser possível considerar o vitalismo como conceito em transição que aguarda por desenvolvimentos da ciência para que se expliquem os fenômenos relacionadas às ultradiluições dos medicamentos dinamizados. Conclui o capítulo referindo-se aos mecanismos vivos e artificiais, onde aborda a questão da autoconservação, auto-regulação e dos mecanismos de interação ativa com o meio, debatendo o conceito de organismo como uma máquina viva e radicalmente distinta da artificial. Adentra assim nos aspectos mecanicistas do discurso médico e em suas analogias operativas oriundas de ciências auxiliares que, aplicadas à biologia, tutelam os meios de investigação com elementos quantitativos rígidos e incapazes de expressar as qualidades inatas aos eventos vivos. Neste ponto retorna às questões do vitalismo e da carência atual da ciência para refletir as intuições homeopáticas acerca do fenômeno vital, afirmando-o como de interesse de todos, não apenas homeopatas ou não homeopatas, médicos ou não médicos, mas também de filósofos ou tecnólogos, poetas ou cientistas etc.      Conclui seu livro afirmando que a homeopatia não é um sistema auto-suficente e acabado, mas sim uma ciência e uma prática em construção. Apresenta as possíveis linhas de pesquisa a serem seguidas na busca da fundamentação científica da intuição clínica da homeopatia, apontando as vertentes da experimentação, dos estudos epidemiológicos e dos seguimentos biográficos prospectivos; finaliza referindo-se às fronteiras epistemológicas.

Homeopatia: prática médica humanística

Homeopatia: prática médica humanística

Homeopathy: a humanistic approach to medical practice


Marcus Zulian Teixeira*



RESUMO
Na última década, o modelo médico vigente busca resgatar um incremento na relação médico-paciente, com propostas de humanização nas áreas da educação, assistência e política médica. Valorizar características holísticas das práticas não convencionais em saúde sugere a incorporação de aspectos diversos das ciências humanas no entendimento do processo de adoecimento do indivíduo, ressaltando que o interesse do médico por aspectos aparentemente não relacionados ao órgão acometido (história de vida do paciente, personalidade, interesses etc.) deve ser acrescentado à consulta médica técnica e não-humanizada. Tendo em vista que a homeopatia utiliza esta ampla abordagem semiológica como prática inerente, empregando a totalidade de sintomas característicos do enfermo para avaliar o desequilíbrio orgânico e escolher o meio de tratamento, a prática clínica homeopática tem muito a contribuir com o humanismo da medicina.
Unitermos: Homeopatia. Saúde holística. Relação médico-paciente. Humanismo. Humanização da assistência. Semiologia homeopática.

SUMMARY
During the last decade, the traditional medical model has endeavoured to retrieve an improvement in the patient-physician relationship by means of propositions for humanization in the areas of education, medical care and policies. To enhance holistic characteristics of non-conventional practices in health, the incorporation of several aspects of humanities in understanding the process of the individual's illness, stressing that the physician's interest in aspects apparently not related to the impaired organ (history of the patients life, personality, interests, etc.) should be added to the technical and less humanized consultation. Since homeopathy embraces this wide semiological approach as inherent practice, using the totality of characteristic symptoms to evaluate organic unbalance and choose means of treatment, homeopathic clinical practice can signnificantly contribute to humanism in medicine.
Key words: Homeopathy. Holistic health. Patient physician relationship. Humanism. Humanization of assistance. Homeopathic semiology.



INTRODUÇÃO
Com os avanços da fisiologia integrativa, que busca compreender o ser humano como uma unidade psico/neuro/imuno/endócrino/metabólica interativa, ao invés de um conjunto de sistemas fisiológicos distintos e isolados, o binômio saúde/doença passa a ser estudado segundo uma abordagem dinâmica, integrada e multifatorial, em vista dos aspectos bio/psico/sócio/espirituais que definem a individualidade humana.
A fim de que a prática médica rotineira englobe esta complexidade humana, a medicina reducionista cede espaço à medicina humanística, com propostas inovadoras no campo da educação, assistência e política médica, para que este novo conceito de saúde possa ser transmitido à população segundo os pressupostos de integralidade, eqüidade e universalidade propostos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Na educação médica, Martins1 descreve os quesitos para uma formação humanizada e ética dos futuros profissionais:
"As escolas médicas devem, também, deixar claro, em todos os momentos do curso, que um médico deve ter uma alta competência técnica, mas deve também ter uma formação humanística e ética, e atuar de forma socialmente responsável. Os médicos com quem os estudantes convivem devem ter claro que jamais estarão ensinando apenas sua área de conhecimento, mas estão sendo modelo de atendimento aos pacientes. Outro desafio para o século XXI é o currículo médico se adequar à visão moderna de saúde, que envolve fatores biológicos, psicológicos, sociais, ambientais, hábitos e estilo de vida e acesso aos serviços de saúde. A promoção da saúde, a prevenção, a busca da qualidade de vida, a reabilitação e a reintegração à sociedade passam a ser tão importante como o diagnóstico e tratamento das diversas enfermidades".
Além da necessidade de construir uma sociedade igualitária, aliando os ideais políticos com a promoção da saúde, Ferreira e Silva2 sugerem, como propostas assistenciais para uma medicina mais humanizada, o desenvolvimento de projetos na área da medicina preventiva, a consolidação do Programa de Saúde da Família (PSF), a valorização de práticas alternativas de saúde (fitoterapia, acupuntura e homeopatia), dentre outras.
Assim como acontece com a população mundial, cresce entre a classe médica (estudantes, residentes e médicos) a aceitação e a procura por práticas não convencionais em saúde, devido às suas características humanísticas: ampliam o entendimento do binômio saúde/doença (interconexão corpo/mente/espírito), favorecem a relação médico-paciente e incrementam a resolutividade clínica das doenças crônicas sem os prováveis efeitos adversos das drogas clássicas3.
Segundo estes enfoques, a prática médica homeopática contribui à humanização da medicina, por utilizar visão antropológica e abordagem semiológica holísticas, valorizando os múltiplos aspectos da individualidade humana no processo de adoecimento e na escolha da substância curativa. Da mesma forma que esta "individualização" exige tempo maior de consulta e acompanhamento para que o entendimento do doente e a correspondente adequação terapêutica sejam realizadas, a dinâmica semiológica homeopática clássica, que prioriza a escuta de todas as queixas do enfermo, incrementa a relação médico-paciente, fator indispensável para uma medicina humanizada.
Homeopatia e humanismo
Na busca por uma terapêutica menos iatrogênica do que a medicina heróica de sua época (séculos XVIII-XIX), que se esforçava para expulsar a imaginária materia peccans por meio de sangrias, eméticos, laxantes, sudoríferos, diuréticos etc., espoliando o organismo das forças e dos humores vitais indispensáveis à manutenção da saúde,
Samuel Hahnemann, fundador do modelo homeopático, aplica princípios éticos e humanísticos ("beneficência" e "não-maleficência") ao elaborar uma prática médica que visa estimular as forças curativas do organismo sem os efeitos nefastos das altas doses dos medicamentos heróicos.
Inter-relacionando as ciências humanas ou humanidades com a medicina, Hahnemann incorporou aspectos antropológicos, filosóficos, sociológicos e psicológicos na compreensão do binômio saúde/doença, empregando conceitos do modelo médico vitalista, predominante em sua época:
"No estado de saúde do indivíduo reina, de modo absoluto, a força vital de tipo não-material que anima o corpo material (organismo), mantendo todas as suas partes em processo vital admiravelmente harmônico nas suas sensações e funções, de maneira que nosso espírito racional que nele habita, possa servir-se livremente desse instrumento vivo e sadio para um mais elevado objetivo de nossa existência". (Organon da arte de curar, §9)4
Criticando qualquer especulação metafísica sobre a natureza desta "força vital", entende-se o processo de adoecimento como um enfraquecimento dos mecanismos fisiológicos normais de adaptação e compensação, correlacionando este desequilíbrio orgânico às diversas manifestações sintomáticas do indivíduo (pensamentos, sentimentos, sensações, desejos e aversões, predisposições climáticas, aspectos do sono etc., além dos aspectos clínicos habituais), utilizando esta "totalidade de sintomas" como referencial para diagnosticar opadecimento da força vital (predisposição individual, suscetibilidade mórbida ou desequilíbrio homeostático) e para prescrever, segundo o princípio da similitude, os medicamentos que despertavam um conjunto de sintomas semelhantes nos indivíduos sadios (similia similibus curentur).
Ao valorizar a totalidade de sintomas característicos na individualidade enferma, tanto no entendimento da doença, quanto na escolha do meio de cura, pressupõe-se fundamentos da fisiologia integrativa moderna, priorizando as manifestações sintomáticas do estado psíquico-emocional por observar, segundo uma concepção psicossomática ou holística do adoecimento humano, que "em todas as doenças físicas, a disposição psíquica e mental está sempre se modificando e, em todos os casos de doença, que devem ser curados, o estado psíquico deve concorrer como um dos mais notável no conjunto característico dos sintomas, se quisermos traçar um quadro fidedigno da doença, a fim de poder tratá-la homeopaticamente, com êxito". (Organon, §210)
Ao detalhar a abordagem semiológica homeopática (Organon, §83-104), Hahnemann inicia as instruções para a realização deste "exame individualizador de um caso de doença", enfatizando a importância de saber ouvir todas as queixas do paciente, observando e anotando atentamente tudo o que esteja fora do comum, a fim de que o conjunto de particularidades possa ser apreendido e utilizado na escolha do medicamento específico:
"O doente se queixa do desenvolvimento de seus males; as pessoas que o rodeiam relatam suas queixas, seu comportamento e o que perceberam nele; o médico vê, ouve e observa com os demais sentidos o que há nele de alterado ou fora do comum. Escreve exatamente tudo o que o paciente e seus amigos lhe disseram, com as mesmas expressões por eles utilizadas. Se possível, permanece em silêncio deixando-os falar sem interrompê-los, a menos que se desviem para outros assuntos (pois cada interrupção perturba o encadeamento do pensamento do narrador, posteriormente não lhe ocorrendo de novo tudo exatamente como ele pretendia dizer a princípio). [...]". (Organon, §84)
Desta forma, o médico homeopata que se propõe seguir a técnica semiológica correta, a fim de diminuir as possíveis falhas na escolha do tratamento apropriado, deve esforçar-se a conhecer as suscetibilidades mórbidas individuais, realizando uma anamnese detalhada e humanizada, interessando-se genuinamente por todas as nuances do paciente (mesmo aquelas não relacionadas diretamente à "enfermidade" ou ao "órgão doente", como "sua história de vida, sua personalidade, seus interesses"), buscando "enxergar a dimensão pessoal do outro", como descreve Giglio5 na sua proposta para a humanização dos médicos:
"O médico humanizado ouve com interesse seus pacientes. Como vimos, ouvir aprimora a pessoa do médico, dá-lhe mais satisfação profissional, além de aumentar também a satisfação de seus pacientes. Contextualizado ou não pelo conhecimento das humanidades, o que quer que os pacientes lhe contem durante sua vida profissional por si só aumentará o seu interesse no lado pessoal de seus próprios pacientes. Ouvir é, portanto, a habilidade a ser cultivada para que nosso exercício profissional seja continuadamente renovado e dinamizado por nossos pacientes que, sob o pretexto de um sintoma ou doença, venham a nos procurar para estabelecer um relacionamento profissional e humano aprofundado que é a base da relação médico-paciente".
Conflito de interesse: não há.

REFERÊNCIAS
1. Martins MA. Ensino médico [editorial]. Rev Assoc Med Bras. 2006;52(5): 282.         [ Links ]
2. Ferreira ILM, Silva TPT. A humanização da medicina no Brasil: reflexões. Rev Assoc Med Bras. 2007;53(3):206.        [ Links ]
3. Teixeira MZ, Lin CA, Martins MA. O ensino de práticas não-convencionais em saúde nas faculdades de medicina: panorama mundial e perspectivas brasileiras. Rev Bras Educ Med. 2004;28(1):51-60.         [ Links ]
4. Hahnemann S. Organon da arte de curar. 2a ed. Tradução de: Organon der Heilkunst. Ribeirão Preto: Museu de Homeopatia Abrahão Brickmann, 1995.         [ Links ]
5. Del Giglio A. Medicina e humanismo [editorial]. Rev Assoc Med Bras. 2007;53(3):191-2.        [ Links ]


Artigo recebido: 19/07/07
Aceito para publicação: 03/08/07


Trabalho realizado pela Disciplina "Fundamentos da Homeopatia MCM0773" da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, São Paulo, SP
* Correspondência Rua Teodoro Sampaio, 352/128 São Paulo - SP Cep 05406-000 Tel.: (11) 3083-5243 Fax: (11) 3082-6980 marcus@homeozulian.med.br

Homeopatia: prática médica coadjuvante

Revista da Associação Médica Brasileira

On-line version ISSN 1806-9282

Rev. Assoc. Med. Bras. vol.53 no.4 São Paulo July/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0104-42302007000400027 

PRÁTICA CLÍNICA

Homeopatia: prática médica coadjuvante

Homeopathy: coadjutant medical practice


Marcus Zulian Teixeira*



RESUMO
Em vista do binômio saúde-doença da concepção homeopática abranger aspectos diversos da individualidade humana, a escolha do medicamento deve englobar as características psíquicas, emocionais, gerais e físicas do paciente. Neste processo de "individualização do medicamento", o entendimento da complexidade humana exige tempo e dedicação, encontrando a resposta satisfatória após um conjunto variável de atuações. Atuando de forma coadjuvante às demais práticas médicas, o médico homeopata deve ter consciência de que poderá suspender os medicamentos alopáticos necessários à manutenção da integridade do paciente tão somente quando tiver certeza da ação substitutiva do medicamento homeopático escolhido. Deste modo, estará cumprindo o aforismo hipocrático primo non nocere.
Unitermos: Homeopatia. Diagnóstico Constitucional. Diagnóstico Medicamentoso. Simillimum. Terapêutica. Bioética.

SUMMARY
Considering that in the homeopathic conception, the binomial health-disease encompasses several aspects of human individuality, choice of the medication should include the patient's psychic, emotional, general and physical characteristics. In this process of "individualization of medication", understanding the human complexity demands time and dedication to finding the satisfactory reply after a variable number of attempts. Acting as coadjutant to other medical practices, the homeopath should be aware that he may only interrupt administration of the allopathic drugs necessary for maintenance of the patient's integrity when he is assured of the substitutive action of the homoeopathic medication chosen. This way, the Hippocratic aphorism primo non nocere will be fulfilled.
Key words: Homeopathy. Diagnosis Constitutional. Diagnosis Medicamentous. Simillimum. Therapeutics. Bioethics.



Na arte da significação (semântica), estudamos as mudanças ou as transições sofridas pelas palavras em seus significados, ao longo do tempo e do espaço. No intuito de caracterizar a homeopatia como modelo terapêutico para o tratamento das enfermidades humanas, inúmeros adjetivos são-lhe atribuídos: medicina alternativa, complementar, não-convencional, coadjuvante, integrativa, etc. Nestas acepções imputadas ao modelo homeopático, importa entendermos o conceito ou a noção do que os termos expressam ou exprimem, pois representam o papel que o agente da ação (médico homeopata) deverá desempenhar quando assumir tal ou qual atribuição.
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), "os termos 'complementar' e 'alternativa' (e, às vezes, também 'não-convencional' ou 'paralela') são utilizados para referir-se a um amplo grupo de práticas sanitárias que não fazem parte da tradição de um país, ou não estão integradas em seu sistema sanitário prevalente", estando a homeopatia encaixada nesta classificação1.
Dentro de uma conotação terapêutica, o adjetivo "alternativo" significa "o que se diz ou faz com alternação" ou "que vem ora um, ora outro", descartando a freqüente atuação da homeopatia de forma concomitante a outras práticas médicas. A denominação "complementar" também não condiz com a atuação desta prática no tratamento das enfermidades humanas, pois significa "que serve de complemento" ou "que sucede ao elementar", em contradição às evidências clínicas que apontam para a resolutividade de diversos problemas de saúde tratados exclusivamente pela homeopatia. Assim como para outras formas de tratar distintas das empregadas comumente pelo modelo tradicional, o termo "não-convencional" exprime uma conotação institucional e política para estas atitudes terapêuticas "distintas das amplamente ensinadas nas faculdades de medicina e geralmente utilizadas em hospitais"2.
No termo "coadjuvante", que significa aquele que "coadjuva, ajuda ou concorre para um fim comum", encontramos um significado apropriado para a forma como a terapêutica homeopática deve se colocar perante as demais práticas médicas vigentes, em vista de buscarem, como objetivo comum, o bem-estar físico, psíquico, social e espiritual dos seus pacientes. O adjetivo "integrativo" ("capaz de integrar ou juntar-se, tornando-se parte integrante") também exprime a idéia de atuar de forma integrada com outras abordagens terapêuticas.
Aspectos práticos da terapêutica homeopática impedem que ela se arrogue no direito de atuar, indistintamente, de forma independente e autônoma (não-coadjuvante, não-integrativa) dos demais conhecimentos e práticas da medicina moderna, como a prerrogativa sine qua non de se valorizar a individualização do medicamento homeopático, que significa a aplicação do princípio da semelhança entre a totalidade de sintomas característicos do indivíduo e as manifestações patogenéticas despertadas pelas substâncias nos experimentadores humanos3. Apenas o medicamento homeopático corretamente adaptado ao conjunto de sintomas característicos da individualidade enferma (individualizado) poderá promover a reação homeostática almejada, responsável pela cura de enfermidades crônicas e agudas das mais diversas categorias.
A não observância deste pressuposto obrigatório e intrínseco ao modelo homeopático de tratamento das doenças redunda em ineficácia terapêutica, como demonstrou a meta-análise do The Lancet publicada em 2005: não foram observadas diferenças estatisticamente significativas quando se comparou a eficácia do placebo versus a eficácia dos tratamentos homeopáticos que desprezaram a individualização do medicamento homeopático [a grande maioria dos ensaios clínicos homeopáticos selecionados apresentava desenhos impróprios à clínica da individualidade, empregando "um mesmo medicamento" ou "uma mesma mistura de medicamentos (complexos homeopáticos)" para uma queixa clínica comum de todos os pacientes, sendo que na análise final nenhum dos oito ensaios clínicos homeopáticos incluídos aplicava a individualização na escolha do medicamento]4-5.
Por outro lado, quaisquer médicos homeopatas honestos, que aproveitem os ensinamentos que a prática clínica lhe demonstra diariamente, sabem que este "processo de individualização medicamentosa" nem sempre é imediato, exigindo consultas e avaliações periódicas no processo gradual de conhecimento do binômio doente-doença e suas suscetibilidades mórbidas individuais. De forma análoga às outras práticas médicas, incertas por natureza, as limitações existentes na homeopatia, no médico homeopata e no paciente exigem um tempo mínimo para que o ajuste satisfatório do medicamento e suas potências ocorram, fazendo do tratamento homeopático uma técnica empírica, na qual os resultados somente serão observados a posteriori da administração da terapêutica.
Assim sendo, o diagnóstico medicamentoso correto poderá ser um processo mais ou menos demorado (horas a dias nos processos agudos; semanas a meses nos processos crônicos), exigindo do médico homeopata uma conduta consciente e ética que impeça a suspensão imediata dos demais medicamentos em uso, desde que necessários e indispensáveis ao bem-estar físico, psíquico, social e espiritual do paciente.
Ao contrário dos episódios benignos, que evoluem de forma satisfatória, causando incômodos suportáveis ao paciente, nas doenças agudas e crônicas graves a intervenção terapêutica pode ser o diferencial entre a vida e a morte.
Todo médico homeopata consciente deve refletir na capacidade pessoal, evidenciada em sua experiência clínica diária, de atingir o diagnóstico precoce do medicamento homeopático individualizado ideal (simillimum), único capaz de atuar em profundidade e estimular a resposta homeostática terapêutica nestes casos complexos. Homeopatas respeitados referem o índice de 20%-30% de acerto do medicamento simillimum num curto período de acompanhamento do paciente. Desta forma, 70%-80% destes casos graves, que necessitam de drogas alopáticas para a manutenção das funções vitais, estariam desprotegidos e suscetíveis a desenvolverem iatrogenias fatais com a suspensão prematura dos medicamentos em uso.
Desprezando estas premissas inerentes ao modelo, muitos colegas não assumem o caráter "coadjuvante" do tratamento homeopático, suspendendo drogas aloenantiopáticas imprescindíveis à manutenção do equilíbrio orgânico numa primeira consulta, ou mesmo antes de terem a confirmação da resposta clínica do medicamento indicado, desrespeitando critérios fundamentais e seculares da "boa prática médica homeopática".
Como aceitar a suspensão imediata de hipotensores em pacientes hipertensos graves, da insulina em diabéticos tipo 1, de anticoagulantes em cardiopatas severos, de broncodilatadores em asmáticos graves, etc., sem que tenhamos total segurança da atuação substitutiva do medicamento homeopático prescrito? Além do possível agravamento da doença de base (AVE, cetoacidose diabética, IAM, crise asmática grave, respectivamente), a suspensão abrupta e indiscriminada dos medicamentos enantiopáticos poderá desencadear a reação paradoxal ou efeito rebote do organismo (reação vital) causando eventos graves e fatais6-8. Como desprezar a probabilidade da ocorrência destas iatrogenias nesta conduta homeopática imprudente?
Exemplos deste tipo de conduta inaceitável por parte de colegas "homeopatas" são vivenciados freqüentemente em pronto-socorros ou atendimentos de emergência, transmitindo a falsa idéia de que "a suspensão imediata dos medicamentos alopáticos em uso" representa uma prerrogativa da clínica homeopática. Este preconceito, fomentado pelos casos de insucesso inicial da terapêutica associados à postura irresponsável de médicos, contribui para que a homeopatia encontre dificuldades em ser aceita como uma importante colaboradora no tratamento de inúmeras doenças perante a medicina convencional.
Em vista de ser um modelo de difícil execução, que exige dedicação e estudo constante, a terapêutica homeopática deve ser encarada como "prática médica coadjuvante" perante as demais especialidades médicas, até que se atinja o status medicamentoso ideal (simillimum), que poderá permitir a substituição gradativa das drogas aloenantiopáticas em uso, desde que viável fisiologicamente. Para isto, devemos embasar nossa conduta substitutiva em exames clínicos e subsidiários (bioquímicos, provas de função, imagens, etc.) que atestem o reequilíbrio dos sistemas orgânicos primordialmente alterados, desprezando as suposições da mentalidade "contracultural", avessa aos avanços da ciência contemporânea, que ainda impregna alguns segmentos do movimento homeopático.
Homeopatia é coisa séria! Não pode ser encarada como um deslumbre de médicos "alternativos" que desprezam a integridade de seus pacientes por acreditarem num "poder absoluto e imediato" de qualquer substância homeopática prescrita, desprezando, na maioria das vezes, o critério da individualização medicamentosa, fundamental para o sucesso da terapêutica homeopática.
Para evitarmos estas disparidades, presentes em todas as classes de especialistas despreparados, os cursos de formação e educação continuada em homeopatia deveriam explicitar, de formas claras e objetivas, as limitações temporais do modelo, evitando os exageros da prática médica homeopática displicente, que pode se transformar num instrumento nocivo quando utilizada de forma inconseqüente.
Juntamente com a certeza dos benefícios do tratamento homeopático bem conduzido, que contribui de forma eficaz e efetiva na resolutividade de inúmeras enfermidades humanas, o médico homeopata deve incorporar à sua conduta holística, generalista e integrativa o aforismo hipocrático primo non nocere.
Conflito de interesse: não há.

Referências
1. World Health Organization. WHO traditional medicine strategy 2002-2005. Geneva; 2002. Avaliable from:http://www.who.int/medicines/publications/traditionalpolicy/en/index.html.        [ Links ]
2. Teixeira MZ, Lin CA, Martins MA. O ensino de práticas não-convencionais em saúde nas faculdades de medicina: panorama mundial e perspectivas brasileiras. Rev Bras Educ Med. 2004;28(1):51-60. Disponível em:http://www.abem-educmed.org.br/rbem/pdf/volume_28_1/ensinos_de_praticas.pdf.        [ Links ]
3. Teixeira MZ. Panorama da pesquisa em homeopatia: iniciativas, dificuldades e propostas. Diagn Tratamento. 2004;9(3):98-104. Disponível em: http://www.apm.org.br/fechado/d_tratamento/dt_9ed3/RDT-9%20(3)_98-104.pdf.        [ Links ]
4. Teixeira MZ. Será mesmo o fim da homeopatia? Diagn Tratamento. 2006;11(1):61-3. Disponível em:http://www.apm.org.br/fechado/d_tratamento/dt_11ed1/RDT%2011(1)%2061-63.pdf.        [ Links ]
5. Teixeira MZ. Homeopatia: ciência, filosofia e arte de curar. Rev Med (São Paulo). 2006;85(2):30-43.        [ Links ]
6. Teixeira MZ. Evidence of the principle of similitude in modern fatal iatrogenic events. Homeopathy. 2006;95(4):229-236.        [ Links ]
7. Teixeira MZ. NSAIDs, Myocardial infarction, rebound effect and similitude. Homeopathy. 2007;96(1):67-68.        [ Links ]
8. Teixeira MZ. Bronchodilators, fatal asthma, rebound effect and similitude. Homeopathy. 2007;96(2):135-7.        [ Links ]


Artigo recebido: 22/02/07
Aceito para publicação: 19/03/07


Trabalho realizado pela Disciplina "Fundamentos da Homeopatia" da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo
* Correspondência Rua Teodoro Sampaio, 352/128. Cep: 05406-000. São Paulo/ SP. Tel.: (11) 3083-5243 Fax: (11) 3082-6980 marcus@homeozulian.med.br

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Cansaço e Mitocôndria

Cansaço e Mitocôndria. Qual a relação?

Alimentação, Diversos

8 de maio de 2015

As mitocôndrias são as organelas que geram energia para a célula estando presentes em todas as células do corpo humano, exceto as células vermelhas do sangue e convertem proteínas, gorduras e carboidrato em  ATP, nossa  principal forma de energia celular . As mitocôndrias são responsáveis pela geração de mais de 90% da energia necessária para o corpo estimular o crescimento e manter a vida. Quando mais velho ficamos  menos mitocôndrias e menos produção de energia ( ATP)

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Mitocôndria

Quando elas começam a falhar, menos energia é gerada dentro da célula, podendo causar lesão e até mesmo morte celular. Se este processo for repetido por todo o organismo, sistemas inteiros começam a falhar e a qualidade de vida deste indivíduo fica severamente comprometida.,

A perda de função na mitocôndria, organela chave responsável pela produção de energia celular, pode resultar em excesso de fadiga e outros sintomas que são queixas frequentes em quase toda doença crônica.

Umas das  atuais vertentes  para  o envelhecimento saudável  é a busca de formas  de estimular a  biogênese mitocondrial , isto é, o nascimento de novas mitocôndrias, independente da idade. Existem inúmeras formas de se fazer isso, mais abaixo citarei algumas.

No nível molecular, uma redução da função mitocondrial ocorre como um resultado das seguintes alterações:

(1) uma perda de manutenção elétrica e química dos potenciais da membrana mitocondrial interna,

(2) alterações na função da cadeia de transporte de elétrons (CTE),

(3) uma redução no transporte de metabólitos críticos nas mitocôndrias.

Por sua vez, estas alterações resultam numa redução da eficácia da fosforilação oxidativa e uma redução na produção de trifosfato de adenosina (ATP). Esta fadiga é muitas vezes descrita pelos pacientes como uma falta de energia, cansaço mental ou físico, resistência diminuída e recuperação prolongada após a atividade física, coisa bem comum de se ouvir de pessoas doentes e mais velhas Mecanismos etiológicos subjacentes à fadiga não são bem compreendidos, no entanto, a fadiga é um sintoma característico da doença mitocondrial.

Por isso, uma revisão realizada por Filler et al.1 analisou estudos que investigaram a associação de marcadores de disfunção mitocondrial com fadiga e propôs possíveis direções de pesquisa para melhorar a compreensão do papel da disfunção mitocondrial na fadiga. A busca minuciosa usando PubMed, Scopus, Web of Science, e Embase localizou 1.220 artigos. Depois da aplicação de critérios de inclusão e exclusão, um total de 25 artigos que atenderam aos critérios de elegibilidade foram selecionados para a revisão completa. Disfunções na estrutura mitocondrial, a função mitocondrial (enzimas mitocondriais e estresse oxidativo/nitrosativo), metabolismo energético mitocondrial (ATP produção e metabolismo de ácidos graxos), as respostas imune e genética foram investigadas como potenciais contribuintes para a fadiga. A carnitina foi o marcador da função mitocondrial mais investigado. Níveis disfuncionais foram relatados em todos os estudos investigando carnitina, no entanto, o tipo específico de carnitina que apresentou nível disfuncional  variou. Perfis genéticos foram o segundo parâmetro mitocondrial mais estudado. Foram propostas seis vias comuns: metabolismo, produção de energia, o transporte de proteínas, morfologia mitocondrial, disfunção do sistema nervoso central e infecção pós-viral. A coenzima Q10 foi a enzima mitocondrial mais comumente investigada. Os baixos níveis de coenzima Q10 estiveram consistentemente associados à fadiga.

Vários componentes do sistema metabólico mitocondrial requerem a substituição de rotina, e essa necessidade pode ser facilitada com suplementos naturais. Os ensaios clínicos têm demonstrado a utilidade do uso de suplementos orais de reposição, tais como L-carnitina, ácido alfalipóico, coenzima Q10 (ubiquinona). Combinações destes suplementos podem reduzir significativamente a fadiga e outros sintomas associados com a doença crônica e podem naturalmente restaurar a função mitocondrial, mesmo em pacientes de longo prazo com fadiga intratável.

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  • Deficiência de L Carnitina

A carnitina (ácido beta-hidroxi-gama-trimetilaminobutírico) é substância indispensável para transportar os ácidos graxos de cadeias médias e longas através da membrana interna das paredes mitocondriais. A carnitina disponível para esta função provém 25% da dieta normal e 75% é sintetizada no organismo. Não é conhecido e requerimento dietético diário, mas sabe-se que a carne contém mais carnitina que os vegetais. A síntese da carnitina é feita a partir da lisina, que é transformada em gamabutirobetaína que é transformada em carnitina no fígado e rins dos seres humanos. A deficiência de carnitina pode ocorrer por dieta deficiente, diminuição da síntese hepática, aumento de excreção, defeito de transporte da carnitina para o músculo e alta proporção de carnitina esterificada em relação a carnitina livre.

Sintomas: Cardiomiopatia, déficit de crescimento e alterações da consciência e coma, por vezes, hipotonia. O tratamento consiste na suplementação da dieta com L-Carnitina.

  • Deficiência de Coenzima Q10

A CoQ10 é feita naturalmente no corpo, mas a deficiência pode ocorrer devido a doença, baixo consumo de alimentos ou a utilização de alta CoQ10 pelo organismo. Os sintomas de deficiência incluem insuficiência cardíaca, pressão arterial elevada e dor no peito. Dependendo da causa da deficiência, suplementos com CoQ10 ou aumento da ingestão diária pode ser eficaz. A falta da Coenzima Q10 pode causar diversas situações de importância clínica, como:

– Insuficiência cardíaca: Evidências preliminares sugerem que CoQ10 pode ser eficaz para a insuficiência cardíaca crônica. Baixos níveis sanguíneos de CoQ10 têm sido associados a esta condição. CoQ10 tem sido utilizado em combinação com outras ervas e suplementos para a insuficiência cardíaca crónica.

– Pressão alta: Há boas evidências para apoiar o uso de CoQ10 no tratamento da pressão arterial elevada. No entanto, são necessários mais estudos avaliando uma dose mais elevada, por um período de tratamento mais longo.

– Degeneração macular relacionada à idade: Degeneração macular relacionada à idade (DMRI) é uma doença ocular que causa perda de visão em adultos mais velhos. As primeiras investigações sugerem que uma combinação de acetil-L-carnitina, ômega-3, e CoQ10 pode melhorar a função visual de DMRI.

– Envelhecimento cutâneo: Estudos iniciais sugerem que uma combinação de CoQ10 e outros antioxidantes e minerais podem melhorar a aspereza da pele e as rugas finas. Mais pesquisas são necessárias para entender o papel da CoQ10 no envelhecimento da pele.

– Doença de Alzheimer: Existe alguma evidência de que a idebenona, um composto feito pelo homem, semelhante a CoQ10, pode beneficiar as pessoas com doença de Alzheimer. No entanto, o efeito da CoQ10 em si ainda não está bem esclarecido.

– Esclerose lateral amiotrófica (ELA): CoQ10 tem sido estudada para a esclerose lateral amiotrófica (ELA), uma doença que afeta o cérebro e células nervosas da medula espinhal que controlam o movimento muscular.

                                doencas-mitocondriais CoQ10

Pirroloquinolina quinona – PQQ: Em 2010, pesquisadores da Universidade da Califórnia na cidade de Davis, lançaram um artigo de revisão mostrando que o papel fundamental da Pirroloquinolina quinona – PQQ (uma vitamina do complexo B) no crescimento e desenvolvimento, decorre de sua capacidade única para ativar vias de sinalização diretamente envolvidas no desenvolvimento, funções e metabolismo energético celular. O estudo demonstrou de modo muito significativo que a PQQ não só protege a mitocôndria do estresse oxidativo, mas promove a geração espontânea de novas mitocôndrias (biogênese mitocondrial) nas células em processo de envelhecimento. Trata-se de um antioxidante extremamente potente, até cinco mil vezes mais eficaz que a vitamina C (veja meu post Déficit de Memória, Envelhecimento e a Importância da PQQ).

Ácido Lipóico: Presente em todas as células do nosso corpo, é chamado de antioxidante universal, pois é solúvel tanto em água quanto em gordura, ajudando a diminuir o armazenamento de gordura no corpo direcionando as calorias para produção de energia. O aumento de energia permite à célula ingerir mais nutrientes, remover resíduos e substituir componentes danificados. O Ácido Lipóico é encontrado em pequenas quantidades em alimentos como o espinafre, brócolis, ervilha, levedo de cerveja, couve, farelo de arroz e carne, ele é facilmente absorvido pela corrente sanguínea e também pode cruzar a barreira hematoencefálica.

D-Ribose: é um carboidrato monossacarídeo diferenciado, sendo componente do material genético e do ATP (trifosfato de adenosina). O ATP é uma molécula utilizada pelo nosso corpo como principal fonte de energia. Todos os movimentos e processos químicos do organismo são alimentados por moléculas de ATP. Já é conhecida a suplementação com ribose por via oral, por um período curto de tempo, porém os efeitos da ribose são potencializados através do tratamento endovenoso, realizado por um profissional de saúde especializado. Não é de ocorrência natural nos alimentos, exceto na forma de riboflavina (vitamina B2). Algumas das melhores fontes de riboflavina incluem filé mignon, ovos, leite de vaca, leite de cabra e iogurte, salmão, atum, arenque e bacalhau. A riboflavina é encontrada em uma grande variedade de alimentos vegetarianos e é particularmente rica em vegetais de folhas verdes. Algumas das melhores fontes incluem nozes, grãos integrais, espinafre, couve de Bruxelas, legumes, cogumelos, espargos, acelga, mostarda, couve, nabo, aipo, repolho e alface.

L-Carnitina: é um nutriente fabricado pelo próprio organismo, sintetizado nos rins, fígado e cérebro a partir de dois aminoácidos essenciais, a lisina e metionina, estando presente em todas as mitocôndrias. E seus níveis teciduais são influenciados por fatores desde má alimentação até desnutrição, envelhecimento e algumas doenças. Por proporcionar uma variedade de benefícios para o organismo, pode aumentar a desempenho energético, reduzir os danos da neuropatia diabética e regular o metabolismo associado ao estresse oxidativo das células.

Vitamina B3 (niacina): também conhecida como niacina ou ácido nicotínico, é importante para a manutenção do sistema nervoso. Principais fontes: amendoim, castanha do Pará, levedura, fígado, aves, carnes magras, leite, ovos, frutas secas, cereais integrais, brócolis, tomate, cenoura, abacate, batata doce e em grande parte dos legumes, verduras e frutas, em geral. Pesquisadores da Universidade de Helsinki, na Finlândia, e da École Polytechnique Fédérale de Lausanne, na Suíça, têm mostrado que a vitamina B3 pode retardar a progressão da doença mitocondrial, sugerindo o seu potencial como uma abordagem terapêutica inovadora para as doenças mitocondriais musculares em adultos. Em sua publicação atual, Dr. Nahid Khan do grupo Prof. Anu S. Wartiovaara mostrou que alimentando ratos com alimentos suplementados com a vitamina B3, retardou a miopatia mitocondrial. O tratamento aumentou a massa e função mitocondrial, e curou as anormalidades estruturais. Estes resultados mostram claramente o potencial desta forma de vitamina B, para ativar o metabolismo mitocondrial disfuncional.A melhor  forma  de usar a vitamina B3 é em HEXANICOTINATO DE INOSITOL

“Estes resultados são um avanço para a compreensão dos mecanismos de doenças mitocondriais musculares humanas e para explorar as opções de tratamento eficazes para esses distúrbios progressivos de adultos. Eles também destacam o papel potente de niacina em guiar o metabolismo energético mitocondrial”, concluiu o Professor Wartiovaara.

Como podemos observar, a alimentação natural é forte aliada da saúde mitocondrial. Portanto, muito cuidado com alimentação industrializada, rica em carboidratos simples, com baixa concentração de minerais essenciais como Cromo, Zinco, Cobalto, Manganês, Magnésio, Cálcio, Complexo B e Vitaminas C e E. Este tipo de alimentação tem ação deletéria sobre o nosso DNA, sendo esta ação mais intensa sobre o DNA mitocondrial, que é 20 vezes mais sensível à ação dos radicais livres do que o DNA nuclear.

Restrição calórica:  Conhecida há mais de 70 anos, a restrição calórica (RC) diminui a expressão de genes associados ao envelhecimento e aumenta a biogênese mitocondrial muscular, aumentando a disponibilidade energética celular. Nos experimentos com animais avaliando o envelhecimento e doenças neurodegenerativas, a restrição calórica protegeu os neurônios. Em indivíduos obesos, há maior tendência a uma diminuição no desenvolvimento cognitivo com o envelhecimento. A RC também pode contribuir no aumento da expressão de antioxidantes, como por exemplo, ratos alimentados com uma dieta menos calórica tendem a exibir maior quantidade de vitamina E, coenzima Q-10 nas membranas celulares cerebrais. Essa capacidade de estimular a expressão de antioxidantes é fundamental para reduzir os danos oxidativos em proteínas, lipídios e DNA.  A restrição dietética, aliada a uma nutrição balanceada em nutrientes e não nutrientes, induz efeitos benéficos sobre a saúde, como aumento da longevidade, retardo na incidência de doenças crônicas, prolongamento da fase reprodutiva, maior preservação do colágeno e atraso na formação de lipofuscina nos tecidos. No caso da saúde cardiovascular, a restrição calórica conduz a uma diminuição na produção de espécies reativas e, consequentemente, da lipoperoxidação cardíaca e também a um aumento das defesas antioxidantes, protegendo o miocárdio. A restrição calórica (RC) é responsável pelo aumento da capacidade antioxidante, do reparo celular e da resposta imune, protegendo mais os indivíduos do estresse oxidativo. Outro benefício da RC é aumentar o nível das sirtuinas. Elas foram isoladas e caracterizadas por Sinclair e Guarente em 199748 e compreendem proteínas desacetiladoras dependentes da coenzima NAD, envolvidas no controle do metabolismo energético e associadas à longevidade. A restrição calórica estimula as sirtuínas que inibem a expressão do NFkB, reduzindo a inflamação, a imunossenescência e o envelhecimento celular.

 

Referências

Types of Mitochondrial Disease

http://www.umdf.org/site/pp.aspx?c=8qKOJ0MvF7LUG&b=7934629

Luft, R. The development of mitochondrial medicine. [Review]

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC44681/

Síndrome de Barth

http://portaldocoracao.uol.com.br/doencas-de-a-a-z/sindrome-de-barth

Christodoulou, J. Barth syndrome: clinical observations and genetic linkage studies.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/?term=American+Journal+of+Medical+Genetics%2C+50(3)%3A+255-64%2C+1994

Atrofia ótica, tipo Leber

http://www.orpha.net/consor/cgi-bin/OC_Exp.php?lng=PT&Expert=104

Síndrome de Leigh

http://www.centrodegenomas.com.br/m720/doencas_mitocondriais/sindrome_de_leigh

Cerebral creatine deficiency syndromes: clinical aspects, treatment and pathophysiology.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/18652076

Human Coenzyme Q10 Deficiency

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1832150/

 Doenças mitocondriais

http://www.moreirajr.com.br/revistas.asp?fase=r003&id_materia=3279

Energizing sick mitochondria with vitamin B3: Effective treatment for mitochondrial disease

http://www.sciencedaily.com/releases/2014/04/140407090403.htm

Déficit de Memória, Envelhecimento e a Importância da PQQ

http://www.robertofrancodoamaral.com.br/blog/alimentacao/pqq-o-super-antioxidante/

Mitochondrial dysfunction and chronic disease: treatment with natural supplements.

http://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/24473982

Association of Mitochondrial Dysfunction and Fatigue: A Review of the Literature.

Nutrientes e Mitocondria

Metabolismo mitocondrial, radicais livres e envelhecimento 

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1809-98232011000300005&script=sci_arttext

 

 

 

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