PALESTRA SOBRE A TEORIA E PRÁTICA DA HOMEOPATIA ROBERT ELLIS DUDGEON
Lectures on the Theory and Practice of Homoeopathy
Manchester: Henry Turner; Londres: Aylott and Co., 1854]
Robert Ellis Dudgeon - Nascido em Leith (1820–1904)
Traduziu para o Inglês a 5ª e a 6ª edição do Organon, que foi reescrito por Hahnemann um ano antes de seu falecimento, mas editado somente em 1859, 72 anos após a sua morte, depois de Boericke adquirir os direitos, sendo considerada a tradução mais fiel realizada para o ingles. Também traduziu a Matéria Médica Pura, em 1888 e editou vários volumes para o Hahnemann Publications Society of Liverpool, incluindo a Enciclopédia Patogenética ou Experimentação Homeopática (1850).
Ajudou a fundar o Hospital Hahnemann e a escola de Homeopatia em Bloomsbury Square, foi presidente da Sociedade Britânica homeopática em 1878 a 1890 e publicouPalestras sobre a Teoria e Prática da Homeopatia em 1854.
Hahnemann Dudgeon
Prezados alunos do Curso de Ciência da Homeopatia;
Neste dia 21 de novembro, dia da Homeopatia, lhes envio este material riquíssimo a respeito das dinamizações baseado no trabalho de Dudgeon, célebre homeopata inglês, que proferiu em Londres estas Palestras sobre a Teoria e Prática da Homeopatia. Ele deixa muito claro que, para amenizar seu longo sofrimento causado pela perseguição dos médicos e dos apotecários (farmacêuticos), Hahnemann decretou, na última fase de sua vida, como que uma lei sobre ter que utilizar somente a CH30 (considerada dinamização muito alta por ele) em qualquer caso de doença, contradizendo tudo que havia ensinado e praticado durante décadas. Este fato gerou manifestações contrárias de muitos homeopatas, seus seguidores fiéis e comprometidos com os ensinamentos em vários países, rejeitando terminantemente a proposta porque era totalmente diferente do que vinham praticando com sucesso a longo tempo.
Neste trabalho, Dudgeon faz um apanhado sobre as manifestações de 20 dos homeopatas mais famosos do mundo e deixa claro que o próprio Hahnemann, apesar de querer instituir o uso desta dinamização elevada, ele próprio quase não a indicava. Estipulou neste período, que só trabalhassem com ela, mas pouco a utilizava, pois na prática continuava com suas indicações de dinamizações baixas. Dentre diversas comprovações temos casos escritos e suas boticas pessoais utilizadas até a morte, nelas existiam poucos vidros em CH30, a grande maioria eram em dinamizações baixas. Você verá as várias opiniões e a dificuldade em entender a atitude de Hahnemann, que para eles foi extremamente contraditória, mas que na realidade teve o único objetivo de proteger a continuidade da prática homeopática na época, conforme o próprio Dudgeon conclui neste trabalho.
Esta fase tumultuada da vida de Hahnemann coincide com a sua publicação do livro Doenças Crônicas, no qual adota este mesmo procedimento para tentar uniformizar a prática.
Temos muito ainda o que aprender sobre a homeopatia, concluo que as principais linhas poderiam ser chamadas de Hahnemanniannas, seja kentinianos, etc. Acredito que nenhuma das linhas que seguem Hahnemann atualmente são 100% puras, nem nós, porque em minhas pesquisas, ao extrapolar a visão dos miasmas para o meio ambiente, houve como que um deslocamento do eixo principal, embora sem modificar a sua base.
Mas existe algo que, a meu ver, se respeitarmos, nos proporciona segurança na indicação da homeopatia e nos direciona na sua ação, seria um norte a nos guiar:
- não lesar no tratamento (dinamizações altas podendo causar agravações violentas e patogenesia) e;
- o restabelecimento integral da saúde baseado na origem miasmática das desarmonias.
Para ser Hahnemannianno mais próximo, a meu ver, deveria ser respeitado estes 2 eixos básicos. Kent não teve acesso a 6ª edição do Organon e avançou nas altas potencias sem conceito de patogenesia e seus seguidores ainda o imitam sem questionamentos. Também pecam verdadeiramente contra a homeopatia aqueles homeopatas atuais e famosos mundialmente por sua sapiência homeopática, quando ensinam e tentam nos convencer também aqui no Brasil, de que os miasmas são uma mentira e uma enganação de Hahnemann.
No texto abaixo, apresento-lhes recortes do trabalho de Dudgeon.
Para haver uma diferenciação na leitura, as citações em itálico e negrito pertencem aHahnemann, as que estão apenas em itálico são de Dudgeon e as citações em letra normal, seja entre parênteses, além dos títulos em caixa alta e observações em verde, são de minha autoria.
Um abraço Hahnemannianno a todos e ótima leitura!
Prof. Eliete M M Fagundes
PREFÁCIO
As seguintes Palestras foram proferidas no Hospital Hahnemanniano durante os
anos de 1852 e 1853. Atendendo ao pedido de muitos dos que as ouviram, tenho aqui consentido que sejam publicadas; e para fazê-las mais merecedoras de serem apresentadas aos
meus colegas e aqueles desejosos de obter conhecimento acerca da história e
desenvolvimento da Homeopatia, tenho revisado cuidadosamente os manuscritos
originais e feito adições consideráveis, de modo que estejam o mais completas possível e atualizadas até o momento da sua publicação. Tenho me preocupado em oferecer ao leitor tudo de interesse e importância ligado ao progresso da Homeopatia, do ponto de vista teórico e prático, que tem aparecido na nossa literatura e na de outros países. Realizei o relato mais sucinto e correto que pude das ideias e afirmações dos principais autores sobre a Homeopatia e no geral consegui fazê-lo, de primeira, graças ao acesso a uma biblioteca homeopática muito extensa. Quando não pude referir as fontes originais, procurei os resumos contidos em vários periódicos e obras homeopáticas alemães, em particular, o último trabalho do Dr. Griesselich, cujos resumos das obras de outros considero maravilhosamente acurados em quase todos os casos em que pude compará-los aos originais.
Confio em que esta pequena obra será útil para o estudioso da Homeopatia, senão pela originalidade das ideias colocadas, pelo menos por apresentar um olhar toleravelmente acurado das várias fases no desenvolvimento progressivo da Homeopatia e, além de apontar as direções corretas que a arte homeopática deve seguir e aperfeiçoar, pode servir para alertar contra os falsos caminhos seguidos pelos seguidores nominais da Homeopatia, que só levam a extravagâncias e à negação de toda ciência.
Preciso suplicar a indulgência do leitor com respeito às imperfeições desta obra. O assunto é muito extenso e difícil e não é improvável que eu tenha me equivocado em muitas das conclusões que inferi e nas opiniões que expressei, sem importar todo o cuidado e minuciosidade que apliquei. É possível que alguém mais competente para realizar a tarefa que eu me propus, mais tarde, possa vir redigir um tratado melhor acerca do sistema homeopático e possa aproveitar meus erros e falhas para fazer a sua obra mais perfeita, como corresponde à importância do assunto. No ínterim, e até que um tratado mais completo apareça, acredito que o homeopata inglês encontrará nas páginas seguintes muitos pensamentos novos acerca da teoria e a prática da Homeopatia que, espero, serão de interesse.
Londres, dezembro de 1853.
PENSAMENTOS DE HAHNEMANN
Não posso deixar de citar um trecho de uma carta de Hahnemann, que mostra imediatamente sua independência de toda ajuda alheia para disseminar suas doutrinas e sua confiança em sua futura aceitação geral:
“Nossa arte”, diz ele, “não precisa de alavancas políticas, faixas mundanas
de honra a fim de se tornar alguma coisa. No meio das ervas daninhas fétidas e
feias que florescem ao seu redor, ela vai gradualmente transformando-se de
uma pequena semente em uma árvore esguia; e já seu elevado topo ultrapassa a
vegetação fétida ao redor. Apenas tenham paciência! Finca fortemente suas
raízes sob o solo, ganha força imperceptivelmente, mas sempre mais
firmemente e no devido tempo, crescerá até a altura de um carvalho divino,
esticando seus grandes galhos, que não mais se curvam sob a tempestade,
abarcando todas as regiões da terra e a humanidade, até então tão
atormentada, poderá refrescar-se sob sua sombra benéfica!”
“A minha consciência está limpa: ela testemunha que sempre procurei o
bem estar da humanidade sofredora, que sempre fiz e ensinei o que me parecia
ser o melhor, e que nunca utilizei qualquer procedimento alopático para
satisfazer os desejos dos meus pacientes e evitar que me abandonassem: eu amo
demais meus semelhantes assim como a paz da minha consciência para agir de tal modo. Aqueles que seguem meu exemplo serão capazes, como eu, à beira do
túmulo, de aguardar com tranquilidade e confiança que chegue o tempo de
deitar a cabeça no leito da terra e oferecer sua alma a Deus, cuja onipotência deve
gerar terror no coração dos ímpios!”
A PERSEGUIÇÃO À HAHNEMANN
De que Hahnemann sofreu, e profundamente, calúnias injustas e perseguição incessante, temos ampla evidência em seus livros a partir de 1800. Dentre os documentos achados à sua morte, um deles traz a seguinte inscrição, destinada a ser o epitáfio de seu túmulo, e que soa como o último suspiro de um mártir – liber tandem quiesco (NT: Finalmente, livre para descansar).
Em Königslutter produziu a segunda parte de seu escrito “Amigo da Saúde” e do “Léxico Farmacêutico”; dispunha de tempo suficiente para o prosseguimento de suas pesquisas e escrita, em 1796, para o “Journal” de seu amigo Hufeland, aquele notável “Ensaio Sobre um Novo Princípio para Determinar os Poderes Terapêuticos das Substâncias Medicinais”, aonde modesta, mas firmemente propaga sua crença em que, pelo menos nas doenças crônicas, devem ser utilizados medicamentos com a capacidade de gerar afecções similares em um corpo são; no ano seguinte, publicou no mesmo periódico um caso interessante ilustrando suas ideias; escreveu, ainda, um outro ensaio sobre a “Irracionalidade dos Sistemas Complicados de Dieta e Regime e das Prescrições Complexas”.
Os médicos de Königslutter, ciumentos da fama crescente do inovador, instigaram os apotecários a processá-lo por interferência em seus privilégios, ao compor seus próprios medicamentos. Em vão Hahnemann apelou ao espírito e à letra da lei que regulava o negócio dos apotecários, argumentando que seus privilégios se limitavam à composição de
medicamentos, mas que todos, e portanto, muito mais o médico, tinha o
direito de dar ou vender drogas não compostas, que eram a única coisa que ele
utilizava e administrava, além do mais, gratuitamente. Tudo em vão: os
apotecários e seus aliados, os colegas ciumentos, eram poderosos demais para
ele; e, inversamente à lei, à justiça e ao bom senso, Hahnemann, que se havia
mostrado um mestre na arte dos apotecários, graças a seu erudito e trabalhoso
“Léxico Farmacêutico”, foi proibido de compor seus próprios medicamentos
simples.
HAHNEMANN FOI EXPULSO DA CIDADE - A MORTE DE SUA FILHA
A hostilidade dos apotecários e dos médicos de Königslutter expulsaram
Hahnemann desta cidade em 1799. Ele adquiriu uma grande carroça ou carreta, na
qual carregou todas as suas posses e a sua família, e com o coração partido,
despediu-se de Königslutter, onde a fortuna havia começado a sorrir para ele e
aonde havia achado tempo e ensejo para prosseguir suas interessantes
descobertas. Muitos dos residentes, cuja saúde ele havia contribuído a
recuperar, ou cujas vidas ele havia mesmo salvo graças às descobertas do seu
gênio durante essa epidemia fatal de escarlatina, o acompanharam a alguma
distância na estrada de Hamburgo, onde havia decidido dirigir-se e,
finalmente, com uma bênção por seus serviços e um suspiro por seu infortúnio,
despediram-se dele. Assim, ele viajou com todas as suas posses terrenas e a
família ao seu lado. Mas um acidente trágico aconteceu a esse cortejo
melancólico. Ao descer uma parte ladeirenta da estrada, a carreta virou, o
cocheiro foi arremeçado de seu assento e o filho pequeno de Hahnemann ficou tão
machucado, que morreu logo após, enquanto uma das suas filhas teve uma
perna fraturada. Ele próprio estava muito machucado, suas posses muito
estragadas após terem caído num riacho que corria no fundo da estrada. Com a
ajuda de alguns camponeses, foram conduzidos a aldeia mais próxima, onde
tiveram que permanecer por causa da filha, com custos que comprometeram
muito suas finanças já escassas.
Eventualmente, chegou são e salvo a Hamburgo, mas achou pouco ou nada para fazer lá, então mudou-se para a cidade vizinha de Altona. Contudo, nada melhorou com isso e, pouco após, se deslocou para Möllen, em Lauenburg. No entanto, a saudade de sua pátria, que descreve como muito forte, prontamente o empurrou, mais uma vez, para a Saxônia. Instalou-se em Eulenburg, mas a perseguição da parte do médico superintendente do local
o expulsou logo depois. Dirigiu-se a Machern e após, a Dessau, onde em 1803,
publicou uma monografia sobre os “Efeitos do café”.
Durante os anos de 1808 e 1809 situou-se em Torgau, e percebendo que seus
achados e desvelos só recebiam oposição, desprezo e omissão da parte de
seus colegas médicos, recusou-se a responder qualquer uma das injurias
odiosas lançadas contra ele por aqueles que deveriam se orgulhar de
seu compatriota e colega; deixou de escrever em seus periódicos médicos e
apelou contra a injustiça de seus irmãos de profissão ao julgamento não
preconceituoso do púbico esclarecido, passando a publicar seus trabalhos sobre
a medicina antiga e seus projetos para reformá-la numa revista geral de
literatura e ciência intitulada Allgemeiner Anzeiger der Deutschen.
VIDA DE SACRIFÍCIOS
Não posso deixar de mencionar aqui uma anedota ligada com esse assunto, tal como me foi
relatada por um membro da família de Hahnemann e que pinta uma imagem vívida da pobreza
que enfrentava. Durante sua temporada em Machern, depois de trabalhar o dia todo na tradução de livros para o prelo, frequentemente observava sua corajosa esposa lavar a roupa da família à noite, e como não podiam comprar sabão, usavam batatas cruas. O pão que ele pode ganhar com seu trabalho literário era tão pouco, que para evitar brigas, ele pesava porções exatamente iguais. Nessa época, uma de suas filhas, uma menininha, adoeceu e, incapaz de comer a porção diária de pão que lhe correspondia, cuidadosamente a guardava numa caixa até que o apetite retornasse. Sua doença, no entanto, piorou, e convencida de que não iria se recuperar e ser capaz de desfrutar de seu estoque, um dia lhe contou a sua irmã favorita que sabia que estava para morrer, que nunca mais voltaria a ser capaz de comer, e solenemente a presenteou com os pedaços acumulados de pão seco e duro, com que havia esperado fazer a festa após se recuperar.
EDITA OBRAS FANTÁSTICAS EM LEIPZIG
Durante o período que residiu em Leipzig, de 1810 a 1821 escreveu a segunda edição do “Organon” e cinco volumes adicionais da “Matéria Médica” foram elaboradas e apareceram nessa época, contribuindo, de forma efetiva, para a sua fama e consolidando a perfeição do seu sistema, que começou a atrair a atenção de muitos médicos. Obtiveram uma liminar proibindo-o de aviar e aplicar seus próprios medicamentos. Hahnemann não podia escrever receitas para seus medicamentos, porque os apotecários privilegiados não os tinham e não podia confiar-lhes a preparação, visto que eram seus acérrimos inimigos. Assim, sua prática chegou ao fim tendo que abandonar a Saxônia, sua pátria amada mudando-se para Coethen, uma pequena cidade, em 1821.
CONVOCA SEUS DISCÍPULOS PARA REUNIÃO
Em 1827, convocou em Coethen seus dois discípulos mais antigos e estimados, os Drs. Stapf e Gross, e lhes notificou sua teoria sobre a origem das doenças crônicas e a sua descoberta de uma série completamente nova de medicamentos para cura-las, exortando-os a testar a acurácia de suas opiniões e descobertas em sua própria prática. No ano seguinte, apareceu o primeiro e segundo volume de sua solenizada obra sobre as “Doenças Crônicas, Sua Natureza Peculiar e Tratamento Homeopático”.
Em 1830, Hahnemann perdeu sua esposa. Em 1835 casa-se com a Srta. Mélanie d’Hervilly que foi a Coethen no seu 80º ano de vida levando-o triunfalmente a Paris, onde graças à sua influência com M. Guizot, lhe conseguiu autorização para ele clinicar. Morreu oito anos após sua migração para Paris, e lá morreu cheio de honra, aos 89 anos, em 2 de julho de 1843.
Pelo fato de Hahnemann ter vivido um período muito conturbado, com a perseguição da justiça e dos apotecários e sendo expulso de mais de 10 cidades, em 1827 proclamou como que uma "lei da CH30", para poder ter mais estabilidade em sua vida. O fato coincidiu com suas pesquisas sobre os miasmas e na primeira edição de “Doenças Crônicas” ele demonstra claramente que havia ditado esta norma para se livrar da perseguição das autoridades, pois na prática continuava a indicar as dinamizações mais baixas.
Em 1799, o incômodo mais prático da perseguição pelos apotecários entrou em jogo e as intrigas de seus inimigos o impeliram de um lugar para outro. Tendo que sustentar uma grande família em contínuo aumento, esse sistema de perseguição deve ter sido o mais doloroso e perturbador para os seus sentimentos que se poderia imaginar. Embora essa perseguição toda não o fizesse se desviar no mais mínimo da linha de conduta que havia traçado para si, certamente, contribuiu marcadamente para que adotasse esses hábitos de retraimento e reclusão que o caracterizariam mais tarde, para que se tornasse intolerante à contradição e olhar com suspeita, senão com inimizade, para todo aquele que ousasse discordar mesmo que minimamente dele. Sua intolerância pelos que discordavam dele chegou a tais níveis, que costumava dizer:
“Aquele que não anda exatamente na mesma linha que eu, mas diverge, não importa que seja a largura de uma palha, à direita ou à esquerda, é um apóstata e um traidor, e não quero ter nada a ver com ele”.
Quem pode duvidar de que a inimizade inveterada e perseguição dos apotecários tiveram influência no preconceito da mente de Hahnemann acerca do tema da dose, e que, em última instância, levou a esse padrão de Procusto (o mito de Procusto na mitologia grega faz referência à intolerância humana) para regular a dose (30ª) adotadapor Hahnemann, sem bases suficientes?
Quem pode duvidar que o retiro forçado de Hahnemann, e a infeliz decisão adotada, de jamais visitar pacientes, devem posteriormente ter limitado sua prática a, virtualmente, uma única classe de pacientes, a saber, aqueles afetados por doenças crônicas, sendo que se tivesse visto mais doenças agudas, sua prática teria sido consideravelmente modificada? A perseguição dos apotecários teve início em 1799. Antes disso, Hahnemann havia utilizado doses materiais e palpáveis, como aprendemos com casos que publicou antes dessa data. Só em 1800 encontramos, pela primeira vez, algo semelhante às infinitesimais, e apenas em certos casos.
NA PETIÇÃO ÀS AUTORIDADES ACERCA DOS PRIVILÉGIOS DOS APOTECÁRIOS, PADRONIZA A 30ª
Na medida em que a oposição dos apotecários se tornava mais violenta, e o prejuízo sofrido, econômico e outros, mais severo, as doses de Hahnemann foram se tornando cada vez mais refinadas e atenuadas, até que, finalmente, o encontramos afirmando que “meramente cheirar um glóbulo não é só suficiente, mas o melhor de todos os métodos de administrar o remédio”; e, acrescenta, com grande ênfase, “que isso nos permitirá dispensar o serviço dos apotecários de vez”. Quando saiu da esfera da influência e interferência dos apotecários, mudou completamente seu modo de dar o remédio, e o método que adotou em Paris (seus últimos 8 anos de vida), descrito em outro lugar, é uma aproximação mais íntima do método da escola dominante (uso de dinamizações mais baixas).
Na 1ª edição de “Doenças Crônicas”, observa que milhares de experimentos acabaram convencendo-o de que essas doses tão pequenas eram as mais apropriadas e, ao mesmo tempo, negava a utilidade das doses maiores (dinamizações baixas); afirma que nunca obteve o verdadeiro efeito curativo do medicamento até chegar à diminuição da dose. Contudo, no mesmo volume, ele afirma que se curar uma doença pruriginosa recente, às vezes, com uma pequena dose de enxofre, em uma ocasião ele precisou dar ½ grão da 3ª trituração de Carbo vegetabilis, numa família que consistia de sete pessoas e três vezes uma preparação similar de Sepia; essas doses, diz, foram “bastante eficazes”.
Quão curioso é observar que Hahnemann contradiz a si mesmo em quase todos os pontos de suas doutrinas e de sua prática e ainda mais curioso é perceber que a contradição, geralmente, está lado a lado com a afirmação oposta.......
SOBRE A CONTRADIÇÃO DE HAHNEMANN AO TENTAR UNIFORMIZAR O USO DAS DINAMIZAÇÕES USANDO A 30ª
Tanto temor ele tem de aumentar a potência medicamentosa de um
remédio através da agitação excessiva, que, seriamente, evita a prática de
carregar os medicamentos no estado líquido, porque as sacudidas causadas ao
andar ou dirigir, alega, aumentam sua potência num grau perigoso (patogenesia). Para
mostrar que essa dinamização dos medicamentos é puramente efeito da
sucussão e é totalmente independente da diluição, menciona um experimento
feito por ele.
“Dissolvi”, diz ele, “um grão de soda em uma onça de água
misturando com álcool em um vidro, ficando cheio até a metade e agitei
continuamente essa solução por meia hora, isso equivaleu em
dinamização e energia, ao 30ª desenvolvimento da potência”.
A teoria da dinamização envolve, ainda, uma outra contradição.
Hahnemann diz, por exemplo, que a dose mais fraca possível é suficiente para
vencer a doença e que a dose não pode ser feita tão pequena (dinamização alta) quanto para evitar a agravação. Ao mesmo tempo, nos instrui a dinamizar os nossos medicamentos
até o 30º potência, enquanto nos diz que, através dos processos utilizados
nesta operação, o poder do medicamento não diminui, mas aumenta; e até
podemos encontrar que um número de sucussões que, num momento, ele nos
diz que faria o medicamento colocar em risco a vida de um paciente (patogenesia),devido ao
aumento da potência do medicamento (30ª), mais tarde é recomendado por ele no
preparo de todos os medicamentos.
“A 30ª potência,” diz ele, “é o padrão que temos que seguir a fim de obter resultados uniformes.” Hahnemann havia, previamente, numa carta ao Dr. Schreter, expressado sua desaprovação quanto à dinamização dos medicamentos além da 30ª;
Stapf, Hering, Bönninghausen, Rummel e vários outros uniram-se aos louvores de
Gross. Todos eles afirmaram que essas altas diluições possuíam um poder quase
incontrolável e que seu uso pouco cauteloso era extremamente perigoso(patogenesia); de fato, Bönninghausen matou dois cães raivosos instantaneamente com um glóbulo de
uma delas. Jenichen, encorajado pelos seus clientes, continuou potencializando
tremendamente. Hering clamava para ele, constantemente, através do
Atlântico: “Mais alta! Mais alta! Cada ano mais alta!” sugestão essa que, o
pobre Jenichen, não demorava em obedecer, porque da 100 chegou à 200,
500, 800, 1.000, 1.500, 2.000, 10.000, 50.000 e, inclusive, tão alto quanto
60.000. É impossível dizer quão alto ele teria ido no decorrer do tempo, se não
tivesse suicidado ao chegar a 60.000.
Hahnemann tinha tanto medo de hiper-potencializar os medicamentos, que
ordenou um máximo de 60 sucussões na preparação da 30ª diluição, mas o
nosso herói Jenichen não achava nada demais dar 600.000 numa única preparação.
A partir de 1827, Hahnemann sofre uma grande perseguição dos apotecários que queriam destruir sua teoria homeopática das doses infinitesimais e muda radicalmente suas instruções, ordenando desesperadamente aos homeopatas que usassem todos os remédios somente na CH30, como um padrão imutável de dinamização, para assim adequar às exigências das autoridades de farmácia da época e diminuir as perseguições.
Mas mesmo assim, ainda continuou a usar as dinamizações baixas até sua morte, não ultrapassando a 30ª.
Nessa fase da vida de Hahnemann, a saber, até o ano de 1827,
sabemos que as doses dos medicamentos que ele costumava dar eram
variadas e que ele não mostrava uma tendência constante para diminuir as
doses (dinamizações mais altas), mas que, ocasionalmente, voltava para quantidades materiais (baixas dinamizações), guiado ora pela experiência, ora pelo suposto caráter do medicamento ou da doença ou do próprio doente.
É evidente, então, que até esse período, pelo que sabemos, o ano de 1827, Hahnemann não
tinha um padrão fixo para a dose do medicamento.
Na sua petição às autoridades acerca dos privilégios dos apotecários, publicada em 1820, ele tenta uma espécie de padrão, ou melhor, um máximo da dose, quando diz que não
reconhece como discípulos dele ninguém exceto aqueles que dão seus
medicamentos em quantidades tão pequenas que nem os sentidos nem a análise
química são capazes de detectar nada de medicamentoso neles. Veja porém que as doses de
muitas dessas substâncias, cuja lista acabei de ler, (vide lista abaixo dos remédios da Matéria Médica Pura) que ele recomendava e também por muitos anos após esta data, não entram, porém, nesta categoria de quantidades indetectáveis (a lista é composta por remédios em baixa dinamização).
Suas ideias anteriores relativas à necessidade de dosar diferentemente os medicamentos (usar dinamizações conforme a individualidade do caso) que diferiam entre si do ponto de vista da força da dosagem aos pacientes, aonde a maior ou menor quantidade de medicamento, apropriada para cada um, era determinada pela faixa etária, suscetibilidade e doença do paciente – todas essas ideias são, então, abandonadas e Hahnemann procura estabelecer um padrão (30ª) ou regulação uniforme aplicável a todas as doenças, a todas as idades e a todas as suscetibilidades.
MOTIVO DO USO ATÉ A 30ª, CONSIDERADA MUITO ALTA
O trauma de tanta perseguição fica mais ameno ao final de sua vida, pois consegue relatar o motivo do porque fixou uma regra única de uso da CH30, através de uma carta a um amigo.
Talvez o motivo para fixar, assim, uma dose uniforme para todos os medicamentos em todas as doenças se encontre num dos ensaios de Hahnemann, intitulado “Observações sobre as Atenuações Extremas dos Medicamentos” e numa de suas cartas ao Dr. Schreter, onde diz:
“Ao estabelecer como regra que todos os medicamentos homeopáticos sejam atenuados até a 30ª diluição, teremos um modo uniforme de procedimento no tratamento realizado por todos os homeopatas e, quando eles descrevam uma cura, poderemos repeti-la, porquanto eles e nós operaremos com as mesmas ferramentas [...] Assim, nossos inimigos não poderão reprochar que não temos um padrão normal fixo”.
Na mesma carta, ele diz, ao desaprovar as diluições acima da 30ª:
“Deve haver algum final na questão, não pode progredir indefinidamente”; opinião essa que está em certa contradição com as noções.
Como precisava manter a sua postura sobre o uso somente da CH30, ao escrever para o grande público, ele tentou reiterar sua opinião na última edição do “Organon”, mas percebe-se claramente que não é sua verdadeira opinião, pois se contradiz em outras publicações e principalmente no livro “Doenças Crônicas e Escritos Menores”, conhecidos pouco antes da sua morte em 1843, que reafirmam sua prática com dinamizações todas abaixo da 30ª.
Na edição do Organon, ele está mais decidido, ainda, em tentar mostrar a eficácia superior da 30ª diluição. “É verdade, e continuará a ser verdade, como máxima terapêutica homeopática, irrefutável por qualquer experiência no mundo, que a melhor dose do medicamento apropriadamente escolhido é sempre a mais pequena de uma das altas dinamizações” (aqui, entre parênteses, ele indica a 30ª diluição), “tanto para as
doenças crônicas quanto para as agudas”. A única diferença que ele aponta para as doenças agudas é que a dose pode ser repetida mais frequentemente;
DINAMIZAÇÕES MAIS ALTAS
Os seguidores atuais das dinamizações altas, acima da 30ª, se valem de uma única passagem do “Organon” onde Hahnemann fala de algumas dinamizações mais elevadas, sem relatos se havia experimentado em algum tratamento.
Hahnemann, porém, nem sempre permaneceu constante em seu padrão fixo da 30ª diluição, porque, na última edição do “Organon”, ele, inclusive, fala da 60ª, 150ª e 300ª diluição.
Ainda mais tarde, a saber, no prefácio ao 3º volume de “Doenças Crônicas” (edição de 1837), ele diz que quando repetimos o medicamento, devemos descer da 30ª para a 24ª diluição; e nas histórias de dois casos que aparecem na íntegra em “Escritos Menores”, que tratou pouco antes da sua morte, vocês descobrirão que ele deu alguns medicamentos, especialmente, enxofre e mercúrio, em doses muito abaixo da 30ª diluição, aliás, se bem entendida suas instruções, tão baixas quanto a 2ª trituração.
BOTICA DE HAHNEMANN
Uma carta interessante apareceu, recentemente, em Homoeopathic Times, escrita pelo Dr. Chapman, relatando o conteúdo de uma botica de bolso usada por Hahnemann pouco antes de seu falecimento. As diluições contidas nessa botica não eram uniformes e muito menos eram todas elas na 30ª estipulada; ao contrário, se estendiam da 3ª à 30ª, mostrando que, até o fim de sua vida, Hahnemann utilizou todas as variedades de diluições.
CONCLUSÕES DE DUDGEON SOBRE O USO DAS DINAMIZAÇÕES
- Aparentemente, de maneira repentina, as doses de alguns dos medicamentos que prescrevia caíram até um ponto no qual deixavam de ser reconhecíveis pelos sentidos ou através dos testes químicos. Essa queda súbita foi simultânea com o início da perseguição por parte dos apotecários. No entanto, ainda não aplicava a lei homeopática ao tratamento de todas as
doenças e nos casos em que utilizava o tratamento convencional, utilizava doses grandes (dinamizações baixas), inclusive, as maiores.
- Na medida em que foi estendendo a lei para o tratamento de todas as doenças, suas doses se tornaram mais pequenas, mas não de modo uniforme; porque se permitia um espectro entre uma gota de tintura pura ou um grão da 1ª trituração e uma porção de uma gota da 30ª diluição da escala centesimal.
MANIFESTAÇÕES DOS HOMEOPATAS CONTRA A PETIÇÃO ACERCA DOS PRIVILÉGIOS DOS APOTECÁRIOS - 30ª
Com o "decreto" de Hahnemann sobre o uso da 30ª, houve uma infinidade de manifestações de homeopatas de muitas partes do mundo, posicionando-se sobre a sua prática diária de muitos anos de uso das dinamizações abaixo da CH30. Aqui nesta parte das palestras de Dudgeon, ele cita o relato de 21 dos principais homeopatas mundiais. É interessante vermos o quanto eles não concordaram com a atitude de tentativa de Hahnemann em fixar o uso exclusivo da CH30, sem considerar a individualidade no tratamento. Explicam claramente suas opiniões contrárias, baseadas puramente na experimentação clínica de cada um, onde até então sempre obtiveram muito sucesso.
É muito difícil considerar essas mudanças frequentes de Hahnemann em suas ideias e prática acerca da dose e as contradições que elas envolvem, sem se concluir que, repetidamente, ele derivava deduções gerais a partir de dados insuficientes e que a questão da dose, com certos limites, tem importância menor por comparação à escolha do medicamento. No entanto, não se deve antecipar o julgamento que, confiavelmente, vocês farão comigo, até depois de um levantamento cuidadoso das principais opiniões sobre este ponto que foram expressas pelos mais notáveis dentre os seguidores de Hahnemann.
- O Dr. Hartlaub foi um dos primeiros a abordar a questão da posologia homeopática e a questionar a correção das diretrizes de Hahnemann quanto à pequenez da dose e à baixa frequência de sua administração. O miolo do seu artigo é o seguinte: Ele acredita que, quanto às doenças agudas, a menor dose, uma vez dada, pode ser suficiente para vencer a moléstia, mas que no caso das doenças crônicas, mais profundamente enraizadas, podem ser necessárias doses maiores (dinamizações baixas), repetidas mais frequentemente e relata o caso de uma menina escrofulosa, afetada de uma erupção na mão, aonde um grande número de medicamentos não havia conseguido provocar qualquer efeito, nem mesmo evitar que a doença se espalhasse; mas, Conium em tintura-mãe e na 1ª diluição, rapidamente, promoveu uma cura permanente.
- O Dr. P. Wolf, bem cedo, questionou a correção de se fixar a dose na 30ª diluição para todas as doenças e todos os medicamentos e pensou que o escopo da dose não devia ser limitado a cheirar um glóbulo da 30ª e tomar uma gota desta mesma diluição. Ele considerava que o escopo, mais bem, devia ser entre a tintura pura e a 30ª e que as diferentes suscetibilidades dos diferentes indivíduos e das diferentes doenças podem exigir diferentes doses de um
medicamento.
- O Dr. Rau, na obra que citei várias vezes, diz que o melhor guia para determinar a dose é a máxima de que a suscetibilidade do organismo para uma irritação homogênea é diretamente proporcional à violência da doença. Portanto, quanto mais violenta e aguda a doença, menor deve ser a dose do medicamento e maior ela deve ser quanto mais duradoura a doença e mais
crônico seu caráter. Nesse último caso, ele alega que pode ser necessário dar uma gota inteira de alguns medicamentos muito ativos, enquanto que em doenças recentes e muito agudas, uma pequena porção de uma gota da 30ª diluição repetidamente produzirá uma reação intensa. Alguns praticantes, observa ele, têm afirmado que os antipsóricos na 30ª diluição, repetidamente, agem com violência excessiva nas doenças agudas (agravamento, patogenesia) e, portanto, têm recomendado diluições menores; mas, ele tem observado, em geral, que nessas doenças, as doses mais maciças produzem reações excessivamente prolongadas e intensas e que a 30ª e diluições mais altas, ou o mero cheirar uma alta diluição, repetidamente alcançam para curar afecções agudas. Nas afecções crônicas, ao contrário, frequentemente acontece que uma dose pequena (dinamização alta) do medicamento adequado não atua, mas é necessária uma dose maior (dinamização baixa).
- Rummel novamente coloca suas opiniões sobre a questão posológica quando da introdução das altas potências por Jenichen na prática. Diz que as diluições que ele utiliza usualmente são aquelas entre 3 e 30. Ele não pode pretender estabelecer qualquer regra geral sobre a dose adequada, mas alega que teve, comparativamente, os resultados menos favoráveis quando, com o intuito de experimentar, limitou sua prática, exclusivamente, às atenuações baixas,
embora alguns casos ocorressem, por vezes, que pareciam falar a favor da eficácia superior dessas diluições sob certas condições. Admite que os medicamentos ainda são eficazes na
30ª diluição; mas, os advogados das doses maiores também declaram que o organismo é mais raramente suscetível às diluições mais altas do que às mais baixas ou, como ele havia afirmado num artigo anterior, já referido aqui, a adequação da 30ª diluição é a exceção e não a regra.
A admissão da eficácia da 30ª diluição não implica, alega, a negação da eficácia maior da 3ª ou da 10ª diluição, tudo quanto pode ser dito é que, em alguns casos, as diluições altas parecem possuir algumas vantagens.
- O veterano Stapf registra, para nosso benefício, os resultados de seus trinta anos de experiência. A escolha correta do medicamento, ele considera, é o ponto principal; a dose, afinal, é uma consideração secundária. O medicamento adequadamente escolhido, em muitos casos, alcança na dose mais mínima, na 30ª diluição, embora não possa ser negado que diluições muito mais baixas, geralmente, terão o mesmo efeito. O tamanho da dose deve ser determinado de acordo com a natureza do medicamento, a individualidade do paciente e o caráter da doença. No todo, Stapf trata da questão da posologia homeopática muito
cautelosamente e parece ansioso por se mostrar simpatizado com ambas, as altas e as
baixas diluições e de não dizer nada que possa ofender a suscetibilidade de qualquer um dos partidos. Era muito mais cauteloso e adotava como o seu lema “In medio tutissimus ibis”. (Irás seguríssimo pelo meio. Deves evitar os extremos.)
- Dr. Kurtz, favoravelmente conhecido por vários artigos poderosos e efetivos sobre a homeopatia, de caráter prático valioso. Para ele, a dose é, comparativamente, uma questão bastante indiferente. É a qualidade e não a quantidade o que produz o efeito curativo; pouco importa, na maioria dos casos, pensa ele, é mais seguro se aferrar às diluições baixas; ele não pode negar que tem visto a eficácia das diluições altas, mas com a mesma frequência, também a sua ineficácia; ele não nega a ocorrência ocasional de agravações medicamentosas, mas elas não parecem depender da dose dada, porquanto ocorrem igual e frequentemente com as altas e as baixas diluições.
- O Dr. J. E. Veith reconhece a extrema necessidade de diluições e triturações; o medicamento adequado, quando muito subdividido, age muito mais eficazmente e é muito mais adequado às funções dos sistemas capilar e nervoso do que os medicamentos nas formas materiais mais grosseiras. O impulso das ações medicamentosas não deve ser mais poderoso do que o que a
vitalidade requer para suas ações críticas. As diluições conservam seu poder medicamentoso ainda nas potências muito altas. Em sua prática, a 18ª é a diluição mais alta que ele utiliza.
- Kammerer não é tão entusiasta das altas diluições como para desejar a rejeição das baixas e inclusive, a tintura pura; cada uma, diz ele, é adequada no seu espaço e no seu tempo. Ele acredita que não há regras gerais já descobertas para as doses. Ele, geralmente, prefere, nas doenças agudas, as doses grandes (dinamizações baixas) e nas crônicas, as pequenas, mas a escolha das doses, nesses casos, sempre deve depender, em alguma medida, da individualidade do paciente e do poder reativo do organismo.
- o Dr. George Schmid encontra-se no extremo mais material da escala posológica, que, desde o próprio começo de sua carreira homeopática, se mostrou contrário à hiper-micro-posologia dos anos tardios de Hahnemann e um defensor das doses materiais da primeira época deste.
O Dr. Schmid diz que não há motivos para temer o uso das doses grandes (baixas dinamizações), que as verdadeiras agravações medicamentosas são muito mais raras do que se diz, que aquilo que foi chamado por esse nome, em geral, são fases do agravamento natural da doença; e tão longe estão de ser temidas as agravações medicamentosas verdadeiras, quando elas ocorrem, que só devem ser consideradas como um aumento da reação da Vis Medicatrix contra a doença e este aumento, em geral, só faz é levar a uma dispersão mais rápida e bem sucedida da doença; decerto, é necessário que a escolha do medicamento seja correta para isso acontecer. Ele faz o tamanho da dose depender da condição a que se encontra a substância medicamentosa; Assim, de forma bastante curiosa, encontramos o Dr. Schmid, o advogado das doses mais materiais e maciças, manter, como já mostrado a vocês numa palestra anterior, as noções mais ultra-dinâmicas a respeito dos processos mórbidos e curativos e adotar esta outra noção dinâmica de Hahnemann sobre a
dinamização das drogas através dos processos farmacêuticos às que são sujeitas.
- O Dr. Watzke de Viena nos tem fornecido os resultados de sua experiência e reflexões sobre a questão da dose. Ele diz que a escolha adequada do medicamento é o primeiro ponto de importância; o tamanho da dose (dinamização) é subordinado a ele, no entanto, de forma alguma é assunto indiferente. Diz que ele próprio passou por ambos os extremos de nossa posologia homeopática. Numa época, só dava a 30ª diluição e em outra, só a 3ª, 2ª e 1ª atenuações ou tinturas puras; como ele diz, pairou primeiro no éter dos decilhões e após, desceu mais fundo na substância material.
Desses dois extremos, gradualmente, foi chegando a um feliz meio termo, usualmente da 3ª à 6ª atenuação, preparadas de acordo com a escala decimal sem, por isso, rejeitar completamente as preparações mais altas e mais baixas. Supondo que as doses menores (dinamizações altas) sempre efetuem aquilo que as maiores(dinamizações baixas) podem fazer, mesmo assim, prefere estas últimas: 1) porque é da maior importância despir nossas doutrinas e prática o máximo possível da aparência do paradoxal, do prodigioso, do incrível; 2) porque não quer pagar mais caro pelo que pode obter mais barato (patogenesia); 3) por poder ter maior certeza da pureza e da autenticidade com as preparações nas doses maiores.
Ele estabelece como máximas: 1) que o tamanho da dose deve depender da receptividade e da sensibilidade do paciente e do órgão ou sistema afetado, do tipo, magnitude, curso e fase da doença, assim como do caráter do medicamento; 2) que a dose deve ser maior (dinamizações baixas) quanto mais rara, difícil e tediosa seja a cura da natureza através da natureza sozinha e vice-versa. Ele se manifesta contra as altas potências de Jenichen e diz que as testou repetida e cuidadosamente, sem o menor benefício. No entanto, ele não condena as diluições mais altas da escala Hahnemanniana (30ª); ao contrário, ele acredita que há algumas doenças onde elas são indispensáveis e acredita que limitando-nos, como faz Schmid, às doses maciças(dinamizações muito baixas), perderemos muitas vantagens.
- O Dr. Trinks adere às baixas potências e triturações e que, repetidamente, prescreve os medicamentos puros. Ele opina que muitas doenças são curáveis pelas doses mais fortes (baixas dinamizações), enquanto que as doses pequenas e mínimas (altas dinamizações), repetidamente, meramente irritam sem produzir qualquer reação curativa (patogenesia, agravamento). Na histeria, também as doses pequenas, repetidamente, podem não funcionar, especialmente naqueles casos onde a irritabilidade está aumentada de forma anormal em algumas partes, mas em outras o torpor está presente. Nesses casos, por vezes, descobrimos que nem as altas nem as baixas potências fazem bem algum. Em outros casos de histeria, às vezes, observamos os melhores efeitos com as diluições altas. Onde há grande irritabilidade do sistema cérebro-espinhal, repetidamente, há pouca suscetibilidade às influências medicamentosas e, ao contrário, um alto grau de suscetibilidade, frequentemente, co-existem com grande torpor e até paralisia parcial do sistema nervoso. Distúrbios do estado mental de caráter crônico, repetidamente, exigem maior cautela na escolha da dose. Frequentemente, a menor dose alcançada para restaurar o balanço perdido da harmonia se é mais crônico, em outros casos são necessárias doses grandes e repetidas (baixas dinamizações).
- O Dr. Schrön foi um dos primeiros a combater as ideias de Hahnemann na questão da posologia. As doses pequenas e mínimas, diz ele, não devem ser consideradas como essenciais à homeopatia, porquanto o medicamento adequadamente escolhido exibe seu poder curativo também nas doses grandes. O que dar? É a primeira pergunta a se responder. Como dar? É a segunda e uma consideração secundária; no entanto, embora essa seja a declaração invariável
de todos os advogados das baixas diluições, seus oponentes irreflexivos, os partidários do tratamento exclusivo com glóbulos das altas potências, alegam que a quantidade prescrita por seus oponentes serve para compensar a falta na qualidade, com outras palavras, que a dose grande (baixas dinamizações) tem como objetivo compensar uma escolha imperfeita e errada da droga; nada pode ter menos fundamento do que isso.
Talvez estaria mais perto da verdade afirmar que os partidários das altas diluições se importam mais como prescreverem os medicamentos em altas diluições do que em levarem em consideração todas as circunstâncias ligadas com o caso e que poderiam ajudar a determinar a escolha do medicamento. Em outro lugar, o Dr. Schrön diz que muitas observações mostram que as doses mais maciças produziram o efeito desejado, quando as muito pequenas foram ineficazes. Se, continua ele, tomarmos em consideração o fato de que as agravações homeopáticas ocorrem muito raramente, que o que se chama de agravação medicamentosa, geralmente, deve ser atribuído ao curso natural da doença e que uma agravação ocasional não é evitada pelo uso das doses mínimas, não é fácil enxergar por que deveríamos perder tempo precioso administrando doses mínimas, que, por vezes, não produzem qualquer efeito em absoluto.
Porém, não podemos negar, continua ele, que há certos casos, especialmente nos pacientes muito irritáveis ou nas doenças de caráter muito excitado, onde podemos, com a maior vantagem, empregar as altas diluições e, de fato, onde não podemos dispensá-las; mas, na generalidade dos casos, não é necessário ir além da 3ª ou 6ª diluição, enquanto que há muitos medicamentos que podem ser usados, vantajosamente, na tintura pura ou na 1ª atenuação. Apesar de usar essas doses, ele afirma que jamais testemunhou nenhuma das chamadas agravações homeopáticas. Ele ridiculariza o absurdo das altas potências e não perderá seu tempo em testá-las à beira do leito do doente.
- O Dr. Elwert de Hanover escreveu anteriormente um artigo para provar que as diluições 1ª a 8ª, dadas em gotas, eram as doses mais adequadas como regra. Ele considera as doses mais fortes como mais seguras do que as preparações mais diluídas (patogenesia, agravação); segundo ele, elas curam sem agravar a doença e também curam aqueles casos onde, por falta de atenção do paciente às regras dietéticas, as atenuações mais altas não têm chance. Ele confessa que, repetidamente, se obtém bons resultados com as doses mínimas, mas não superiores aos obtidos com as maiores.
Porém, como ele está completamente convencido, através de experiência extensa, de que em muitos casos, as diluições mais altas não produzem qualquer efeito, enquanto que, nos mesmos casos, as diluições mais baixas produzem o melhor efeito, agora, quase invariavelmente, dá exclusivamente números baixos. Diz que as ações medicamentosas primárias, repetidamente, são observadas sob o uso das diluições 1ª a 5ª, mas que isso não interfere no mais mínimo com a cura. Nas crianças nos primeiros anos de vida, ele geralmente usa glóbulos; nas doenças crônicas, ele não é menos bem sucedido agora que utiliza baixas diluições do que era naqueles dias em que utilizava as preparações mais altas, da 12ª à 30ª. Num livro que publicou em 1844, nos oferece uma longa série de casos onde encontramos, quase sempre, que utilizou as doses fortes e mais fortes.
- O Dr. Kämpfer redigiu um artigo elaborado sobre a questão da dose. O paradoxo aparente de que a agravação medicamentosa se observa frequentemente com o uso de doses pequenas (altas dinamizações), enquanto que não ocorre com as doses grandes (dinamizações baixas), ele procura explicar através desta máxima: que o mesmo medicamento, na mesma dose, sob diferentes circunstâncias, nas mesmas doenças, pode produzir efeitos muito diferentes, inclusive, opostos e em doses diferentes, exatamente o mesmo efeito. Ele testemunha o fato de que a 30ª diluição produz efeitos excelentes e relata muitos casos como prova; de fato, ele afirma que tem curado, repetidamente, casos com as doses pequenas, depois de tentar em vão as grandes.
Assim, ele se reconhece, em certa medida, como um defensor das altas diluições; no entanto, declara que acontece muito mais frequentemente que as doses pequenas de diluições muito altas não têm efeito ou têm uma ação muito fraca, enquanto que as grandes doses das diluições baixas têm ação certa e poderosa sem qualquer efeito ruim posterior (patogenesia), por isso, ele se sente compelido, junto a muitos praticantes homeopáticos, a utilizar, via de regra, a maioria dos medicamentos nas diluições médias e baixas, da 3ª à 12ª, em porções de gota ou gota inteira. Ele cita casos para mostrar a necessidade de se usar essas diluições baixas em algumas instâncias e acredita que, em algumas ocasiões, é necessário dar os medicamentos não diluídos (TM). A escolha da dose, dentro dos limites que Kämpfer usa, a saber, da 3ª à 12ª, é determinada pela força do medicamento, a doença e a peculiaridade da constituição do paciente.
- O saudoso Dr. Wahle de Roma, aquele veterano apóstolo da homeopatia, que, enquanto propagava seus princípios na Itália, não deixou de aumentar, ao mesmo tempo, nossa matéria médica com muitas substâncias valiosas, era em dias passados um seguidor implícito das doutrinas de Hahnemann. Na questão das doses, ele fala muito diretamente. Diz que durante os últimos doze anos, ele foi fiel a sua máxima de empregar todas as preparações desde a tintura não diluída até a 30ª diluição; ele, raramente, teve ocasião de utilizar algum de
ambos os extremos da escala, suas doses se estendiam entre a 3ª e a 18ª diluição. Diz ele, “Desde que adotei esse plano, tive sucesso extraordinário na minha prática”. Nas doenças crônicas, geralmente, ele vai das doses menores para as maiores; ele não gosta muito de seguir o caminho oposto. Se a Nº 3 de uma substância vegetal e a Nº 6 de um medicamento triturado não fizerem efeito, é mais provável que a escolha do medicamento tenha sido
errada. A interposição de uma alta diluição, repetidamente, traz de volta a suscetibilidade para as doses grandes (patogenesia).
- O Dr. Schüler alega que todas as potências são úteis em casos especiais. Como resultado de sua experiência, ele nos diz que tem encontrado em pacientes que têm intenso desejo de bebidas alcoólicas, que as doses pequenas de medicamento, mesmo quando repetidas frequentemente, não têm efeito. As preparações que ele utiliza usualmente são as diluições 6ª a 12ª, mas ocasionalmente utiliza as mais baixas, inclusive em tintura-mãe ou infusão.
- O Dr. Helbig de Dresde, com sua orientação filosófica, embora algo fantasiosa, diz que é absurdo defender o uso exclusivo de ora as altas, ora as baixas diluições; admitindo a eficácia ocasional dos medicamentos homeopáticos quando dados nas diluições muito altas, diz que há casos em que o medicamento homeopático precisa ser administrado em doses ainda maiores (dinamizações baixas) que as utilizadas na prática convencional. Helbig fala ainda mais decididamente sobre esse ponto. Por doses mínimas ele entende a 30ª diluição e alega que tem encontrado que Arsenicum, Beladona, Aconitum, Nux vomica e outros medicamentos ainda possuem poder nessas preparações elevadas, mas diz que o uso geral ou exclusivo de tais altas diluições é “uma estupidez”; ele as tem, virtualmente, abandonado, porque em muitos casos estão totalmente destituídas de poder, enquanto que as diluições baixas e a tintura pura ainda agem com efeitos maximamente favoráveis e porque as diluições baixas são mais fáceis de preparar e podemos ter maior certeza de sua autenticidade.
- Dr. Nuñez - Dentre todos os que têm escrito sobre a questão da posologia homeopática, o Dr. Nuñez de Madri, sem dúvida, leva a palma da atenuação excessiva (dinamizações altas). Em seu próprio órgão homeopático espanhol, ele escreveu uma série de artigos sobre a dose....
Se as conclusões do erudito espanhol forem corretas, Hahnemann deve ter feito um trabalho muito pobre no tratamento das doenças crônicas e, inclusive, das agudas, porque, coitado, nada sabia da 2000ª e ainda mais altas potências, ficando reservado ao Dr. Nuñez ensinar ao mundo como tratar as doenças com sucesso e fixar a diluição mínima para todas as doenças num ponto bem longe da atenuação máxima de Hahnemann (30ª).
- A chave do Dr. Cruxent para o mistério todo é esta proposição sucinta: “a dose do medicamento”, diz ele, “deve ser proporcional à duração da doença”. Então, nós perguntamos: como? O nosso filósofo da Castela responde prontamente: “Se a doença durar menos de um dia, dê a tintura-mãe; se durar um dia, dê a 1ª diluição; se dois, a 2ª diluição; se 3, a 3ª; se 10, a 10ª; se 100, a 100ª; se um ano, a 365ª, e no que os calendários chamam de ano bissexto, a 366ª; se 10 anos, a 3.650ª.” Admirável simplicidade! No entanto, apesar da grandeza dessa concepção do nosso filósofo do Oeste, o Dr. Cruxent, eu não faria dela um motivo para se duvidar da acurácia da afirmação bíblica que diz que os sábios vieram do Leste.
- Bönninghausen sobre a homeopatia, da onde pareceria que, na escolha do nosso
medicamento, é relativamente irrelevante se o sintoma está incluído ou não na
patogenesia, sempre que qualquer sintoma sim esteja incluído e descrito como
acontecendo sob uma condição análoga àquela sob a qual qualquer sintoma da
doença ocorre.
Eu não acharia necessário ocupar o tempo de vocês com a exposição
desses absurdos extravagantes, não fosse que, recentemente, temos visto
Bönninghausen ser colocado, para a nossa admiração, como a maior autoridade
viva em homeopatia, enquanto que ele não é mais do que um útil fazedor de
repertórios e um praticante diletante entusiasta.
- O Dr. Mure, no seu livro sobre a Escola Homeopática do Rio de Janeiro, fala, de fato,
sobre os sintomas característicos como determinantes da escolha do
medicamento; mas, os exemplos que cita de sua prática não exibem nada desse
tipo, nada senão uma enumeração mecânica dos sintomas da doença e aqueles
das drogas melhor correspondentes a ela, a droga que apresentar o maior
número de sintomas da doença, sem qualquer consideração de sua qualidade ou
caráter é a que ele escolhe. Sem dúvida, através desse cálculo mecânico dos
sintomas da droga e da doença, amiúde se acerta ao acaso, ao igual que os
empíricos mais irracionais também acertavam ao acaso e o camponês mais
ignorante, às vezes, tem sucesso em curar uma doença que desafia a arte do
mais talentoso dos médicos; mas, a perfeição da medicina não consiste em
acertar ao acaso, mas em ser capaz de selecionar nosso medicamento com a
maior certeza possível; e para isso, é necessário um outro método do que o
procedimento aritmético. (Constatamos neste comentário de Dudgeon o relato de que Mure foi o primeiro a esboçar um repertório digital, embora manualmente).
CONCLUSÃO FINAIS DE DUDGEON
Neste país, felizmente, não temos noção da virulência das discussões sobre os méritos relativos das diferentes diluições no Continente e a maioria dos praticantes britânicos, permite a si mesmos e aos outros uma considerável latitude na questão das doses que prescrevem. O sentimento geral parece ser de que as doses baixas se aplicam às doenças agudas, as altas, às crônicas; mas, estou convencido, há muitas exceções a esta regra. Acredito que Hahnemann cometeu um erro quando se afastou de seu primeiro plano de procurar adaptar a dose às
peculiaridades da doença e do paciente e passou a fixar, primeiro, uma determinada dose para cada remédio e após, a indicar uma dose uniforme para todos os medicamentos.
Todos os discípulos de Hahnemann que têm alguma pretensão à ciência concordam nisso e não sei da existência de um único praticante homeopático que siga as últimas diretrizes posológicas publicadas por Hahnemann.
Nas doenças crônicas, eu acho útil variar a diluição do medicamento, porque a mesma diluição frequentemente repetida parece, a miúdo, perder seu efeito(patogenesia). Se eu comecei com uma diluição baixa, geralmente acho útil ascender na escala até as potências altas; se, com as diluições altas, desço na escala, até as doses mais materiais. Sem negar, em absoluto, o poder das diluições altas nas doenças agudas, acredito que tudo que o medicamento pode fazer, pode ser efetuado pelas diluições abaixo da 6ª.
Quanto aos glóbulos korsakoffianos infectados e as preparações secretadas do domador de cavalos Jenichen, chamadas de “altas potências”, acho que sua introdução foi uma tragédia sem atenuantes para a homeopatia e que em hipótese nenhuma devem ser encorajadas pelos praticantes científicos, devido aos motivos que referimos numa palestra anterior. Podem ser abandonados com total segurança a esses praticantes diletantes, como Bönninghausen e aos passarinhos crédulos, como Gross e companhia.
SOBRE ALGUNS REMEDIOS E SUAS DINAMIZAÇÕES MAIS ADEQUADAS PARA NÃO GERAR PATOGENESIA
Nesse artigo sobre a escarlatina, ele, de fato, diz, sobre o ópio, que
doses maiores das que ele prescreve causam delírio, soluços, morosidade, choro,
etc., (patogenesia) mas não diz quanto maiores devem ser essas doses para apresentar
esses estranhos efeitos.
O ensaio ao que me refiro se intitula “Sobre a Febre Prevalente”. Depois de dar uma descrição excelente e minuciosa de uma epidemia severa com febre típica que prevaleceu em grande parte da Alemanha em 1808- 1809, ele recomenda para seu tratamento, Nux vomica na 9ª
diluição e Arsenicum na 18ª diluição. Ele dá indicações excelentes para o uso de
cada um desses medicamentos, e esse ensaio merece que vocês o leiam cuidadosamente na íntegra.
Num ensaio publicado no ano seguinte, em 1814, contendo instruções
para o tratamento de uma epidemia fatal de tifo ou febre hospitalar, ocasionada
pelas extensas operações bélicas que abarcavam a Alemanha toda, e
notavelmente, pela retirada desordenada da Rússia do exército francês, ele
recomenda o uso de Bryonia e Rhus toxicodendron, ambos na 12ª diluição,
preparados não de acordo com a escala centesimal, mas na proporção de 1 gota
para 6 dracmas, ou 1:300, o que faria esta 12ª diluição intermediária entre a 15ª
e 16ª diluições da escala centesimal. Ele indica que cada diluição seja agitada
durante três minutos. Ele recomenda como dose, uma única gota de cada
medicamento nesse estado de atenuação. “Nenhum dos dois”, observa ele,
“pode ser usado numa diluição menor ou em dose maior; são fortes demais”.
Hyosciamus é indicado para alguns estados dessa febre, na 8ª diluição,
preparada como descrevi, que seria equivalente à 10ª diluição habitual em sua
energia.
Num breve artigo escrito em 1819, Sobre o Tratamento da Mania
Suicida, a dose de Aurum que é recomendada é a 6ª diluição ou trituração. Na
primeira edição da Matéria Médica (vol. IV), publicada pouco antes, ou talvez
depois dessa época, ele aconselha a administração de ouro em casos similares,
em doses da 1ª e 2ª trituração. Em 1825, aconselha a 12ª diluição.
Em 1821, aconselha para o tratamento da púrpura miliar, que então era
uma epidemia furiosa, Aconitum na 24ª diluição e Coffea na 3ª diluição.
Pode ser interessante citar a 2ª edição do 3º, 4º, 5º e 6º volume de sua
Matéria Médica Pura, as doses que indica para os diversos medicamentos.
Esses volumes foram publicados entre 1825 e 1827. A última edição do 1º e 2º
volumes foi publicada depois da invenção da teoria psórica (miasmas), que teve um efeito
revolucionário na posologia de Hahnemann.
No 3º e 4º volumes, publicados em 1825, as doses prescritas são as dos seguintes medicamentos contidos nesses volumes:
Digitallis: 15ª ou 30ª diluição. Ledum: 15ª diluição.
Cham, Chin, Verat, Hyos, Aurum: 12ª diluição.
Stramonium: 9ª diluição.
Ipecacuanha: 3ª diluição.
Hepar sulphuris: 3ª trituração.
Sulphur e Argentum: 2ª trituração.
Ruta: uma dose igual a 10 gotas da 2ª diluição.
Squilla; 1ª diluição.
Guaiac e Sarsaparilla: em tintura-mãe.
Canfora: em doses de 1/8 de 1 grão, em intervalos breves.
As doses de Heleborum, Conium e Chelidonium não são indicadas;
mas provavelmente na tintura-mãe.
No 4º [NT: deve dizer “5º”] volume, publicado em 1826, Thuja, Spigelia e
Staphisagria devem ser usados na 30ª diluição.
Phosphoric acid: 9ª diluição.
Cyclamen e Muriatic acid: 3ª diluição.
Euphrasia, Menyanthes, Calcarea acética e Taraxacum: tintura-mãe.
No 6º volume, publicado em 1827, Manganês, Cicuta e Drosera: 30ª
diluição.
Colocynthis: da 24ª à 30ª diluição.
Asarum: 12ª e 15ª diluição.
Capsicum: 9ª.
Angustura: 6ª.
Ambra, Carbo veg, Carbo anim e Stannum: 3ª trituração.
De carbo veg, ele diz que não é recomendável ir além da 3ª e de Stannum, que antes ele
utilizava a 6ª, mas que agora encontra a 3ª bastante suficiente.
Bismuthum: 2ª trituração.
Verbascum: tintura-mãe.
Spongia, no bócio, em doses de 1 gota, diluída várias vezes; para outros
propósitos, 30ª diluição.
FRASES DE HAHNEMANN
“Mais uma coisa,” escreve para Stapf em 1816, “poupe ao máximo seus elogios. Não gosto deles. Eu sinto, apenas, que sou um homem honesto e simples, que não faz mais do que cumprir com seu dever”.
E, novamente, em sua célebre carta a Hufeland, escreve: “Se a experiência vir lhe mostrar que meu método é o melhor, então, use-o para o benefício da humanidade e atribua a glória a Deus!”
Eis aqui um indicador marcante da percepção que ele tinha sobre a elevada dignidade da nossa profissão. Refere-se à sua descoberta do profilático contra a escarlatina:
“O maior desenvolvimento de todo meio, não importa quão insignificante, capaz de salvar a vida humana, capaz de produzir saúde e segurança, (um Deus de amor inventou esta abençoada e mais maravilhosa dentre todas as artes!), deve ser objeto sagrado para o médico verdadeiro; o acaso ou o esforço de um médico ter descoberto isto. Chega, então, de toda paixão idólatra diante do altar desta Divindade sublime, cujos sacerdotes nós somos!”
Esta botica homeopática era usada por Hahnemann em emergências e foi deixada ao morrer. Nela foram encontradas dinamizações entre 3ª e 30ª.